sábado, 18 de agosto de 2012

Encantos

Ainda se lembra de como ele a espreitava através das cortinas brancas da janela. Segurava entre os dedos mornos o pano envelhecido e esboçava um sorriso franco que exalava o mosto de vida que lhe corria no corpo. Ela olhava-o de soslaio, uma típica manifestação feminina de quando não sabemos muito bem o que esperam de nós. Somos certeiras quando descobrimos, centramo-nos directamente no local exacto onde deveremos fazê-lo, diria até que com divina arte, quando nos é dada a indicação clara do caminho, mas antes disso somos prudentes. Eventualmente previsíveis para quem nos conheça qualquer coisa, mas prudentes, não vamos meter o pé em falso e denunciar dúvidas que temos, que existem, que pairam incertas pelo ar que nos rodeia. Devagarinho começou a abrir a janela e a sorrir para ela quando ela passava, propositada ainda que discretamente. Não podia apontar-lhe intento, ela não o permitia, mas sabia da sua existência, só podia sabê-lo, ela também nunca fez nada para disfarçar. Retribuía o sorriso, sempre soube sorrir muito bem e de forma natural mesmo que envergonhada, é um dos predicados que guarda no corpo. Ele não ligava muito a isso mas apreciava especialmente as mãos dela. Duas partes do seu corpo esguias e pequenas que lhe afagavam os cabelos a toda a hora. Gostava ainda que se escondessem todas nas dele, mas ela nunca percebeu muito a fundo a fixação, nem ele nunca lha conseguiu explicar. Incluir-se-ia possivelmente dentro de um pormenor que lhe acendia algum instinto mais carnal, que só isso justificaria a insistência em olhá-las e em apertá-las até lhe fazer doer. Aí parava e sorria.
Houve uma altura em que se inverteram os papéis. Ele ia e ela olhava, e chegava a acenar, sabia que podia fazê-lo. Já sabia que podia fazê-lo. Houve uma ou outra vez que até lhe atirou um beijo, algo que prezava ao infinito. Chamava-lhe os beijos que voam, e gosta muito deste nome. Ele retribuía sem medo do que ela pudesse achar da sua figura, grande e possante que atirava beijos para o ar, o desajeitado. Nessas coisas nós, mulheres, somos muito mais cuidadosas. Não fazemos tudo o que nos apetece se não nos parecer bem, e perdemos muito com isso. Idealizamos cá dentro o que julgamos que poderemos ou não fazer, racionalizamos os sentires e depois fazemos ou não, de acordo com o nosso próprio julgamento, que pode sempre falhar, acho até que falha muitas vezes. Por isso há coisas que não dizemos e que não fazemos, muito embora as deixemos a flutuar, mais ou menos como lhe flutuavam os olhos quando ele a olhava pela janela. Há por conseguinte coisas que vocês conseguem entender, haverão outras que eventualmente vos escapam. Deveríamos ter um outro cuidado com este tipo de situações. Nós, não vocês que são mais práticos, e que consequentemente vivem uma vida muito mais vivida, talvez mais sentida, ou no mínimo, mais executada. Mas no fundo no fundo, e encarando aqui a prevalência de um julgamento com a inerente  possibilidade de falha, ainda para mais porque me remeto para o género oposto, acho que será também este mistério da nossa existência que vos deixa ligeiramente encantados. Entre outras coisas, claro, mas aqui falo do verdadeiro encanto. A candura emoldurada, que vai-se a ver e com cuidado, desmembra-se em gente. A possibilidade da descoberta traz sempre um qualquer encantamento inerente, eu, mesmo mulher, também gosto muito de descobrir coisas.

( Os momentos e as coisas dependem das nossas escolhas e das nossas avaliações. Ontem alguém me dizia que o problema da sua vida era pensar com o coração. Não me parece de todo que isto constitua um problema. Se partimos de uma linha recta para analisar os sentimentos, encontramos qualquer coisa semelhante a isto: O coração sente, nós deixamos, agora ou depois, e chegamos lá, ou pelo menos soltamos a alma, deveremos sempre conseguir soltá-la. No outro lado: O coração sente, não o escutamos, deixamo-lo de lado, é fraco. Potenciamos a razão e continuamos em busca de conciliação. Parece-me isto, não sei. Sem lutas, claro, mas um a zero, ganham vocês. Porque vivem e porque descobrem.)

10 comentários:

  1. Olá CF, boa noite. Seria interessante, parece-me, que o árbitro nomeado para este jogo fosse a educação sentimental. Assim sendo, no totobola eu arriscaria um empate. Se me permite, agora, irei ver o resto do jogo do meu Benfica. Um sorriso e um bom fim de semana.

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  2. Um empate. Um empate, parecer-me-ia muitíssimo bem. Quanto ao jogo de hoje, que ganhe o Benfica, ora pois, que aí faz de facto todo o sentido uma real vitória :)

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  3. Por meríssimo acaso, não acho. Se eu fosse mulher (salvo seja e cruzes canhoto), tinha-os aqui, na mãozinha. Afinal, falamos ou não falamos de Encanto...? :)

    SLB empatou :(

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  4. Falamos pois. E ninguém aqui disse que nós não temos. Tudo na vida tem um custo :) Essa do SLB doeu...

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  5. Outra dica: nós gostamos de encobrir as vossas mãozinhas por um sentimento e não por um qualquer fetiche sexual. O sentimento chama-se protecção. É idiota, eu sei...

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  6. Não é idiota, não. Será eventualmente o seguimento da naturalidade que vos caracteriza. Não sei, eventualmente, digo eu...

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  7. Sem dúvida, nós somos uma espécime muito natural, biológica. O nosso habitat varia entre a savana da tranquilidade e tundra da fúria. mas passa, passam ambas:)

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  8. Sim Paulo, parece-me ser por aí. Nós andamos mais pelo meio, eventualmente por segurança, não sei. Mas enfim, não tento compreender, apenas dissertei. E está tudo mais do que aceite :)

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