sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Bom dia

A porta abriu-se no segundo andar do prédio. De lá de dentro sai uma moça esguia com uns saltos muito altos e uma mala de mão. A escada do prédio está barulhenta, vêm os netos do primeiro a chegar. Viver em andares traz uma proximidade estranha às pessoas que não são nossas. O espaço é diminuto e as paredes não chegam muitas das vezes para guardar os impulsos de vida que se vivem em escadinha, mesmo que a cara da porta ao lado seja uma coisa estranha. Não se vê mas ouve-se, o que potencia a imaginação tal e qual uma escrita que se lê sem vermos o corpo que a construiu.
Inicia o trajecto profundamente sabedora do que irá suceder a seguir. A moça, mãe dos dois netos da avó que reside ali, irá acelerar o passo mal lhe oiça a descida. Começará atrás da mais velha, vá depressa, a avó está à espera, enquanto deita bofes pela boca por carregar com a mais nova em braços para cima ao mesmo tempo que empunha os sacos de sempre e o seu próprio corpo, significativamente grande, e por consequência certamente pesado. O encontro provavelmente não se dará por segundos, mas poderá até dar-se se o abreviamento do ritmo da mãe e da pobre da filha não for suficiente para concorrer com o aceleramento da moça que desce, alguém que ainda manifesta uma malandrice nata que lhe veio com o nascimento e que provavelmente só lhe será tirada pela morte, a única grandeza suficientemente capaz para dar cabo de determinadas imperfeições do corpo, externas ou internas, nem importa agora aqui. Em circunstância de não encontro, quem desce ainda conseguirá perceber a entrada esquiva e de rompante na porta estreita, logo seguida de um pum rápido e forte, não vá ainda dar-se o caso de vir a ser necessário o temido bom dia, se os olhos se cruzarem e em respeito à boa educação. A boa educação é algo sobre o qual as pessoas gostam de se referir com prosápia, ainda que a  verdade seja que por vezes constitua qualquer coisa que se guarda escondida e que apenas surge em determinado contexto, como se nos restantes domínios não fosse realmente precisa, sendo que isto pode acontecer por inúmeros factores que nem importa por ora dissertar. Em caso de vitória do andar de cima, que quanto mais não seja valerá pela localização superior em termos de patamar, o cruzamento irá ocorrer algures na escada, rodeado a flores e sob o olhar atento das crianças que sorriem, sempre. Nascem então dois bom dias, um a contragosto e o outro provocatório, que a realidade é que a provocação é qualquer coisa que nos cria no corpo uma sensação de empolamento e de satisfação, que ainda que néscia, sabe a vitória. É qualquer coisa, pronto.

4 comentários:

  1. :):):) Aqui valemo-nos dos elevadores, que são dois, para evitar constrangimentos LOL

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  2. :) Diz que aquela não tem :):):)

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  3. Quem não gosta, reside em moradia. Já agora, não geminada e com baldios à volta. Gente complicada... :)

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  4. :) De facto Paulo, há gente complicadinha por aí... Uiiii, nem sabes quanto :):)

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