quinta-feira, 16 de agosto de 2012

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São umas cinco, todas penteadas e viúvas, sei disso porque as conheço há muito. Povoam o jardim de fim de tarde, o mesmo jardim que de manhã é frequentado por homens que lêem jornal, e que depois do almoço é percorrido por famílias que bebem o café enquanto os miúdos correm atrás de bolas, escorregam, baloiçam, saltam e brincam. Ao fim do dia o jardim da cidade já viu inúmeras coisas, já mirou muitas gentes, já assistiu a variadíssimos acontecimentos, e provavelmente está cansado. De nada lhe vale, não lhe permitem descanso, que é exactamente nessa hora que as velhas se reúnem, aparatosas, barulhentas, como que a quererem mostrar que ali ainda existe vida. E existe. Existe sempre vida para além da morte dos que nos morreram.

Pierre-Auguste Renoir

( Pela minha parte consigo percorrê-lo e apoderar-me dele a toda a hora. Não me complica o silêncio da manhã, a dinâmica da tarde, e nem sequer o aparato do final do dia. Pelo contrário. Tenho por hábito aguçar os sentidos e sorver para dentro de mim a vida de tudo e de todos. Encaixo-a dentro do meu corpo, respiro fundo, e volto sempre muito mais cheia.)

4 comentários:

  1. Bom dia, CF. Pungente retrato do que é hoje a solidão: rural ou urbana, que importa. Esperemos que a segurança social trate do assunto, esperemos. Num outro plano: invejo-a. A única coisa que me acontece sorver de quando em vez é a sopa. Tenho que melhorar as minhas maneiras à mesa: a pedagogia usa um bigode de ditador. Grato. Um sorriso.

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  2. Experimente, caro José, com afinco. Vai ver que consegue guardar a vida que o envolve...

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  3. Pela santinha que vi, com estes dois que a Terra há-de comer, uma menina, muito novinha, de saiazinha curtinha, a jogar ao elástico depois do almoço. Saltou fora do Renoir, pois claro... :)

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  4. Uuuuiiii, tanta inha reunida. Saltou, só pode. Mas tu viste, oh lá se não viste :)

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