terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Custódio

Custódio chegou-me ontem. Após o contacto, surge-me de táxi, já rente à noite, e sorri-me de sorriso aberto. Gaba o ar, o cheiro, as gentes que encontra, a limpeza. Senta-se no sofá, escolhido por ele entre os disponíveis, para que lhe fosse possível o assento e a libertação da perna esquerda, feita em silicone pesado e duro, com o objectivo de substituir aquela que Deus lhe levou faz meses, num acidente de viação do qual foi vitima. A perna substituta, fiel companheira já de há algum tempo, devidamente vestida e calçada, é cuidadosamente retirada do local do encaixe, e colocada na sua beira, sob o olhar incrédulo dos restantes, completamente à margem do que por ali se passava, pelo que até perceberem o meandro, julgaram quiçá, algum pensamento descabido, de por lá ter chegado um qualquer ser estranho e falador, que se desapertava aos bocadinhos. Dona Teresa, foi a única que se manifestou.
Conta-me então a proveniência, de um qualquer lar de Lisboa, onde haviam bichos que roíam cobertores, comida pouca, negligência muita. Maus tratos, não teve. Nem bons, nem maus, acaba por dizer-me, estávamos lá, uns quatro ou cinco em cada quarto, uns 30 numa sala metade desta. A única escassez, era do pão para a boca, e do pessoal de trabalho, esses, esses sim, minguavam cada vez mais, uma delas, tenho quase por certo ter sido ela, trazia sarna no corpo. Pegou-me, pois claro, das poucas vezes que me tocou, foram as suficientes para me encher de bicho, a mim e a outros. Costumava dizer-se em tempos, só te falta sarna para te coçares, olhe menina, a mim, nem isso me faltou.
Espanta-se hoje ao ouvir que algures numa casa de repouso, surgem numa mesma noite quatro mortes, nem propriamente num espanto de incredibilidade, mas ainda assim num espanto. Chegou a julgar, ter sido no local por onde passou. Concluímos que não, embora considere que poderia ter sido, que nas noites, pouco se zelava quem estava, que se encontrava a dormir e a dormir tinha de estar, ou então, se por obra da insónia, ou de qualquer outra que lhe atormentasse o espírito ou o corpo, não estivesse, teria de a si próprio se cuidar, que apenas e só pela madrugada, rente ao dia, já sol nascido, é que alguém surgia por forma a aperceber-se do estado de quem por ali estava, prostrado ou não, são ou enfermo, capaz ou incapaz. Não foi, repete-me, mas poderia ter sido.
A mim, choca-me. Ao Sr Custódio também, e a muita gente que conheço. Onde quer que tenha sido, foi sem dever ser. Continuo a julgar, que a negligência e o abandono familiar ao idoso, são uma das mais graves doenças da nossa sociedade. Porque é tão fácil fechar os olhos.

3 comentários:

  1. Infelizmente tive o desprazer de conhecer o lar onde os 4 idosos faleceram e não me parece que tenha sido apenas negligência, apesar de ser a única coisa que deveras por lá existia...
    Só me faz confusão é como é que ainda existem certos lugares, com tanta AZAE que para aí AI...

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  2. É os idosos, as crianças e os animais. É demonstrativo da falta de humanidade da nossa sociedade, no mínimo.

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  3. Apelo ao Voto em Branco...

    Para acabar com as politiquices...

    http://www.petiweb.org/

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