sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Violetas


O Biso chamava-se Francisco, tinha um cão de nome Piruças, lia o Almanaque Borda D'Água e aquecia os pés numa braseira de ferro redonda, onde depositava todos os santos dias, meia dúzia de cavacas, às quais deitava um lume brando e morno, o qual recordo ainda hoje. Veio da Roda da Santa casa, tendo ficado, segundo reza a história, ao cuidado das freiras, durante tempo considerável. Ninguém lhe conhece a proveniência, existindo até a suspeita, por exclusão de partes, entenda-se, que vem dele a responsabilidade de um filho nascido anão, do mais anão que pode haver, que na restante ascendência, conhecida até elevadíssimo grau, toda ela vivida na aldeia de Amiais, não se conhecia mais ninguém assim, de pernas e braços minguados, em que apenas e só cabeça e tronco, se apresentavam dentro da normalidade.
Era mais coisas, o meu Bisavô, mas estas, lembram-me a mim muito bem.
A Bisa, Chica, chamava-lhe eu, numa concordata que lhe realizei em nome do marido, mas Rosalinda de sua graça, era magra e direita que nem um fuso, usava uma trança enrolada em carrapito, e rezava uma ladainha eterna, como que numa encomenda permanente e sem fim, de zelo e cuidado, vindo directamente das mãos de Nossa Senhora de Fátima, sua Santa de predilecção, aos que a circundavam, fossem filhos, netos ou bisnetos, que todos precisavam, dizia ela, de quem lhes orientasse o caminho. Intervalava as rezas, com o ralho ao velho marido, gordo e pastelão, que mais não fazia todos os dias, do que as fracas tarefas de sempre, e que constavam essencialmente em levantar bem cedo, passear-se ao sol, dejejuar-se, e sentar-se na beira da braseira, fiel companheira de parte considerável do ano, largada apenas nos meses de maior calor, Julho e Agosto, mais coisa, menos coisa. A estada variava entre a sala, se estava sol, e a cozinha velha, se não estava, onde num canto preto e sombrio, ardia lentamente um tronco grosso, que servia de base à trempe, em que se colocava a panela negra do chamusco, e se cozia uma sopa de chouriço, como nunca mais comi.
Lembro amiúde aquela casa velhinha, situada no topo de uma pequena colina, onde eu passei tardes sem fim. A casa tinha na envolta um canteiro de violetas. Gosto tanto, mas tanto de violetas.

2 comentários:

  1. A seguir às orquídeas, as violetas são as minhas flores preferidas.

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  2. Já leio este sitio onde mulheres não choram há uns bons tempos, mas, afinal, elas sempre choram... Quando escreves assim, fico com mais certeza que vale a pena continuar a passar por aqui... Um beijinho!

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