domingo, 5 de dezembro de 2010

O dente que brilha

A minha vizinha tem um piercing num dente. Todos os dias, pela manhã, desce a correr as escadas do prédio, levando o filho pela mão e a mochila deste na outra. Quando passa por mim, deixa-me um sorriso rasgado, que deixa antever entre os seus lábios finos e sem qualquer graça, um brilhante cinzento situado exactamente a meio do primeiro dente pré molar. Actualmente já quase me habituei à ideia, daquele sorriso mesclado a cinza, que teima em surgir-me todas as manhãs. De inicio, confesso, a coisa confundiu-me.
Levei com um considerável mês de sorrisos rasgados, em que uma dúvida tremenda se assolou de mim, não me permitindo a minha boa educação, questiona-la sobre o que era aquela coisa estranha, que lhe povoava a boca. Na primeira vez, julguei ser um pedaço de comida, que eu nem bem identificava, que se tinha teimosamente instalado na brancura do dente, e que tivesse ficado despercebido aquando da higiene matinal, coisa terrível aquela, que pode acontecer a qualquer um de nós, e que nos deixa sempre naquela incómoda posição, quando detectada a desgraça, de nos inquirirmos internamente sobre quem já viu, e sobre o que terá pensado. Ela seguiu caminho e eu não mais pensei no assunto.
Na manhã seguinte, o sorriso surge igual, ou seja, o hipotético pedaço de comida que se teria colado ao pobre dente, continuava exactamente no mesmo sitio, sem tirar nem pôr, nem um bocadinho mais acima, nem um bocadinho mais a baixo. Estava lá, a meio do dente, local onde já se encontrava no dia anterior. Eu, na minha ingénua ignorância, mudei o pensamento, catalogando agora tal mancha, numa possível patologia, da qual a pobre estivesse a ser alvo, todos nós temos destas coisas, inesperadas, chatas de resolver, inconvenientes, mas que com o tempo, se solucionarão, pelo que naquela fiquei, aguardando em ânsias que a dita senhora, me voltasse a sorrir de sorriso limpo e imaculado, coisa que muito aprecio.
Nada disso aconteceu, continuando a minha pessoa, todas as manhãs, a ser cumprimentada com o sorriso manchado a cinza, para o qual vou olhando de soslaio, pelo que acabo por perceber, que aquela suposta mazela, estratégicamente colocada no dente, foi intencional, a fim de enfeitar um rosto inundado de normalidade, que em nada ficou a ganhar.
Faço esforço para não lhe olhar para o dente quando ela fala comigo. Acho uma falta de respeito, devemos sempre olhar para os olhos de quem nos fala. A minha vizinha, na sua estranha normalidade, complicou-me a tarefa significativamente.

1 comentário:

  1. LOL é que é quase impossível aos olhos não pousarem numa coisa dessas!...

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