sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Vitórias


Há muito que ouve falar dela. Jaqueline, veio do Brasil há algum tempo. Ingressou na escola da cidade, numa turma que a acolheu. O filho dela ganhou-lhe amizade, que de resto, é criança de amizades fáceis. Ela chega a recear-lhe a bondade, demasiado evidente para uma adequada sobrevivência nos dias que correm. Ainda assim, acredita-a como uma qualidade infinita, das mais puras que existem no mundo, que não obstante o trazer riscos, definem-no como alguém bom, do qual ela sente um orgulho para além de grande. O de mãe, nascido do óbvio, e o que vem inerente a um conjunto de virtudes que lhe encontra, para além desse óbvio.
Jaqueline chegou já as aulas tinham começado. Pouco percebia, e ele fez sempre questão em ajudá-la. A amizade foi surgindo, através das conversas de carteira, das partilhas de material, das trocas de lápis. É a minha melhor amiga, diz ele muitas vezes, que na infância, as amizades surgem assim, depressa, que saudades que tenho disso. Ainda há dias, levou para casa um desenho feito por ela, onde se lia, para o meu melhor amigo. Está de momento pendurado no quarto, num sítio digno, pela dignidade que também ele acarta consigo. Por meandros vários, a mãe nunca a tinha visto. Na chegada, é proibida a subida à sala, e na saída, existem desencontros, obras do acaso. Vê-a hoje, de mão dada com o seu filho, na festa da escola, e sorri. Jaqueline, é uma doce menina escurinha como o carvão. Os cabelos são de um encaracolado miudinho e rebelde, e o sorriso surgiu fácil, mas ele acenou à mãe. A mãe emocionou-se, que nem é dessas coisas. Nunca, o pequeno tinha referido a cor da pequena.
Para a mãe, esse é mais um sinal importante, indicador da dignidade daquele pequeno ser. Julgo que até lhe surgiu uma lágrima, mas isso, pode ter sido apenas minha impressão.

3 comentários:

  1. Maravilhoso...delicioso este post...
    :)

    sandrablogwithaview

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  2. Neste época de luzes e de cor... nada tenho de material para oferecer aos meus amigos. Apenas o meu amor pelas plantas... e um pouco de poesia.
    Um Natal cheio de Amor, ternura e calor humano...

    ESTOU CANSADA DE SER GENTE

    Estou cansada de ser gente...
    Quero um Destino diferente!
    Nem ave, nem flor, nem semente...
    Quero um Destino diferente!

    Gostava de ser estrada!
    Uma estrada da vida,
    bem pisada,
    bem calcada,
    bem corrida...

    Que a chuva me fustigasse
    e o vento me desgrenhasse!
    Que a força do furacão
    atirasse as minhas pedras
    ao meu próprio coração!

    Que me corressem os mendigos
    com a sacola pesada
    e à noite, a horas mortas,
    os garotos delinquentes
    que roubam fruta nas hortas,
    me cuspissem os vestidos
    de cascas e de sementes...
    E ao domingo, saltitantes,
    as meninas do orfanato
    com o seu ar sério e abstracto,
    me pisassem toda, toda,
    me deixassem bem pisada,
    passeada,
    remexida,
    esfarrapada...
    Que bom seria ser estrada!
    (Amélia Veiga)

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