domingo, 12 de dezembro de 2010

Genuinidade

Ela sai ao pai, dizem as vozes que a ele conheceram, que bem por acaso, até consta a minha no meio delas, que conheci de perto, tão digna pessoa. Nasceu de uma mãe que nem por isso a desejava muito, mas acabou por fazer a vontade ao marido, que tanto queria deixar descendência, pelo que o acordo lá surgiu, ainda que a contragosto. Tenho para mim, ser esta uma das contariedades da vida, à qual nunca nos devemos sujeitar. Todo e qualquer ser humano, gerado e crescido num corpo impugnado, põe os pés neste mundo já retorcido, que acredito piamente, nas teorias que estudam a génese no momento da concepção, exacto instante em que se inicia a vida, que enquanto cresce, ainda que dentro de um outro corpo, já capta os sinais externos, sejam eles bons, sejam eles maus. Julgo até podermos considerar, ser esta uma das primeiras manifestações da genialidade do Homem, que muito embora na posse de um outro ser, já é dono e senhor dos seus sentimentos.
Nem imputando aqui qualquer tipo de culpa, à contrariedade materna, sou no entanto obrigada a referir, por da verdade se tratar, que desde a nascença, que ela se assemelha a um qualquer ser estranho, que nem bem sei como baptize, numa palermice exagerada mas genuína, sendo esta, genuína, uma das palavras que mais marca a sua existência, que é assim em tudo, desde sempre, até ao agora. É com ela que trata a irmã, favorita de quase todos, que nasceu no seguimento, surgido vá lá saber-se por obra de quem, de um período de desejo súbito de nova maternidade, que assaltou sua mãe. É com ela que se dedica à arte da joalharia, ofício que aprendeu sobre a orientação do seu querido pai, que ao contrário do resto do mundo, via um futuro promissor para a sua menina, primogénita, amada, genuína, tal como ele. Foi com ela que chorou a sua morte, vinda de repente, numa madrugada de Dezembro, muito perto do Santo Natal, altura em que uma veia do interior do seu corpo, deu de si, deixando-o inerte no chão da casa, numa terrível agonia, que num instante o levou à morte a ele, e à solidão a ela.
Ontem, encontro-a. O mesmo sorriso de sempre, a palermice incontrolável, a genuinidade.
Gosto tanto de pessoas genuínas. Entristece-me a frequência com que encontro a genuinidade ligada a a algum handicap importante.
As pessoas genuínas, mereciam ser premiadas por Deus.

2 comentários:

  1. Epá! Essa do handicap é que não me parece :) Ou então ainda não descobri o meu! LOL

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  2. Que se saiba, Deus tem um enorme deficit quanto a premear quem merece. Ou pelo menos, parece.

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