quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Das mudanças...


Mais uma vez, das mudanças dos tempos.

No meu primeiro dia de escola, cheguei pela mão não sei de quem, mas da minha mãe não foi de certeza, porque ela trabalhava fora da aldeia onde morava, e não tinha cá tempo para essas coisas. De resto, acho que só conheceu a minha professora primária na altura das matrículas ( tentativa), e depois disso pouco mais a viu. Talvez da minha avó, sim, deve ter sido isso. A matricula foi feita numa outra escola, pelas mãos de uma amiga da família, que, à revelia da Professora da aldeia, me matriculou, apesar de eu só completar os 6 anos em Outubro. Não era obrigada, e não queria aceitar-me. Foi obrigada na mesma, pronto, para não se armar em esperta logo à partida. Levava uma mochila, um lápis, um caderno. Não havia livros para mim, pois eu não estava prevista, e naquela altura os livros eram trazidos não sei de onde pela Professora. Foram distribuídos pelos meninos, os livros e o restante material. Almofadinhas de picotar, e mais umas coisas que me recordo. Por mim, nada. Nem havia lugar na sala destinado à minha pessoa ( sim, ninguém parecia perceber isso, mas eu era uma pessoa), pelo que tive de me sentar numa mesa de lado.

Não me lembro de chorar, ou coisa assim. Hoje, à distância, percebo que já existia por ali uma personalidade tramada. No meio da aldeola, perdida na serra, era eu que impulsionava alguns movimentos de animação, como esconder materiais alheios ( se calhar era a minha revolta de ter sido deixada para trás; sim, devia ser isso), ou trancar alguns mais pacatos nas casas de banho, a ver se espevitavam. Não espevitavam nada, e eu levava no nariz, mas pronto. Pelo menos tentei :)

Passado este episódio inicial, o meu percurso foi normal. Não fiquei traumatizada, e fui das poucas que segui um percurso escolar fora. Eu e mais duas ou três.

Hoje, tudo é deferente. Pela manha, alombo com quilos de materiais do pequeno, devidamente etiquetados para a escola, com uma respectiva caixa de arrumação. Todos os livros já estão cá em casa há tempos, e já estão devidamente encapados.

A escola, está munida de aquecimentos centrais, pisos radiantes, quadros electrónicos ( ao invés de um aquecedor a gás, que só se ligava quando já quase nevava, e um quadro a giz, velhinho velhinho...), mesas e cadeiras adaptadas, e uma professora disponível, querida um amor. Teve sorte o meu rebento.

Acabo por concluir que, se na vida tudo fosse lógico, eu seria agora, sei lá, uma qualquer mendiga ( exagerando, obviamente, mas porque não quero depreciar qualquer profissão), e os meninos de hoje, seriam todos Senhores Doutores disto daquilo ou da outra coisa.
Não é assim, de facto. Existem por aqui uns meandros...
E concluo ainda que, ao contrário do que por vezes se diz por aí, nós não traumatizamos assim ás primeiras. Temos capacidades, de adaptação, de resiliência. Somos seres adaptados e adaptáveis. E ainda bem que assim é...

2 comentários:

  1. Mas que belo regresso à memória. Ainda há poucos dias revi mentalmente a minha primeira classe, o puto que se espalhou escadas abaixo mesmo antes das aulas começarem, o ter sido levado pela minha mãe, o ter passado por quatro salas diferentes num ano, o meu primeiro estalo por insistir em dizer "L" em vez de "N". Traumatizados? Não, adultos que sabem que aprender é um privilégio, e que viver é uma aventurda deliciosa. Pelo menos eu e tu... ;)

    Beijocas!

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  2. Fez-me tão bem ler, faz tão bem mudar as perspectivas, de vez em quando.

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