domingo, 27 de setembro de 2009

Da inveja...


Sei que o assunto de ordem são eleições, Sócrates vitoriosos e Manuelas derrotadas, mas não estou muito para aí virada.
Urge-me falar de inveja, porque encontro o mote numa revista dedicada a ela, quase na totalidade. Entre invejas disto e daquilo, destacam-se as supra-sumo. As da sorte, do dinheiro, do Marido desta ou da Mulher daquele.
Em Psicologia, distinguimos dois tipos básicos. Uma fundamentalmente destrutiva, e uma outra de carácter mais impulsivo. Pessoalmente, parecia-me prudente arranjar dois termos distintos, mas a Língua Portuguesa tem destas lacunas. Mil palavras para designar uma coisa, e sentimentos distintos com um mesmo nome.

Todos nós ao longo do nosso percurso de vida, ambicionamos chegar a determinado ponto. Aspiramos determinados poderes, desejamos determinadas coisas ou pessoas. O sentimento de inveja, à parte de ser uma palavra com carga negativa, e pior, ser pecado mortal, é natural do ser Humano, e julgo que quem diz nunca a sentir, está a faltar à verdade.

Não seria no entanto necessário, incutir a carga negativa da palavra, em todas as situações, que serão, na maioria das vezes inofensivas. De resto, a admiração por isto ou aquilo, este ou aquele, poderão ser um móbil para o progresso. A vontade de chegar mais além, ou de atingir determinado patamar. Uma inveja positiva, digamos assim. Poderão também não ser móbil nenhum. Eu, por exemplo, posso dizer que invejo as pernas da Giselle Bundchen. Não me vale de nada, porque nunca vou te-las. Mas também não lhe fico com ódio por ela as ter e eu não. E perdoem-me os crentes, mas não me considero pecadora por isso. Mesmo o Padre da Paróquia, se visse as minhas perninhas de alicate, decerto me entenderia.

Ofensivas passarão a ser, se quem sente a admiração, ou aspiração por determinada coisa ou pessoa, transforme os seus sentimentos em doença. E em vez de admiração, ou impulso em ir mais além, surge vontade em destruir o outro, ou o motivo da inveja. Aí sim, entra-se no campo da patologia, e surge um problema. Um problema real, concreto, que pode destruir ralações de amizade, e induzir mau estar no que inveja, ou até mesmo no invejado. Não raras vezes, assistimos a deteriorações de amizades julgadas verdadeiras, por um sentimento de inveja destrutivo e patológico. Onde a carga de negativismo de quem inveja é de tal forma, que impede um raciocínio lógico, e transporta o invejoso por caminhos desleais e negativos, que culminam na destruição.

Não é fácil, em termos terapêuticos trabalhar este tipo de sentimentos. Mascaram com frequência situações de sérias lacunas ao nível da auto-estima, e o trabalho a ser feito necessita de uma profunda introespecção, a fim de determinar as causas para tamanho negativismo. Porque a inveja destrutiva é profundamente negativa. E incute em quem a sente doses consideráveis de mau estar e culpabilidade.
A outra inveja, a impulsiva, façam o favor de se servir à vontade. Se a galinha da vizinha é mais gorda, e o que nos apetece é engordar a nossa, parece-me bem. Parece-me mal é se a nossa vontade for depenar a outra... Ai sim, temos um problema...

3 comentários:

  1. Recentemente, Miguel Sousa Tavares, numa entrevista que deu no Brasil, disse, que os portugueses são invejosos. Se calhar tem razão.

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  2. Concordo a cem por cento contigo. E admito que a inveja, essa que nos leva a querer ser melhores, já me ajudou muitas vezes. Dou por mim a olhar para os outros e a pensar, se eles conseguem, porque não hei-de eu conseguir também? E isso impele-me a ser melhor, acho que não há mal nenhum nisso.

    Querida CF, directa, concisa e coerente como sempre :)

    Beijo

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  3. Tenho para mim que esta tendência que nos impele, aos portugueses em geral, a dizer tanto mal de quem tem algum sucesso, tem por base essa inveja destrutiva... deve ser a isso que se refere o Miguel Sousa Tavares. É claro que também existe, muitas vezes, a mania da perseguição nos bem sucedidos...

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