sábado, 26 de setembro de 2009

Das nossas escolhas...

Sexta feira à noite. Raras as saídas neste dia. Chegam para postar os olhos em cenários que me atafulham o cérebro de amargas memórias.
Numa amena cavaqueira, que sempre aquece a alma, o vislumbre de algumas figuras tristes, reportam-me a pontos da minha vida. Tristes também. Por muito que analise mentes, continuo a ter dificuldade em explicar a necessidade incongruente dos excessos. Dos excessos a sério, diga-se, não de um aqui e outro ali. Os excessos que tomam posse de quem os comete, e que falam por si, numa força interminável, estranha, mas real.

"-Que foi N?
-É o meu pai; bebeu, e agora diz que quer matar a minha mãe. Tem uma caçadeira.. Ela disse para eu fugir para o pé de ti... E eu fugi. E agora, vais lá salva-la??"

Não matou, e eu não precisei de a salvar, e ainda bem, porque não me sairia bem de certeza. Era uma miúda. Ela salvou-se sozinha, levando na bagagem pouco ou nada, rumo a um incerto transatlântico. Salvou-se a ela, e aos dois filhos do calvário imposto por excessos de um Marido de aspecto taciturno e rançoso. Ele ficou por ali. Muitas vezes o vi chorar, lágrimas amaldiçoadas de um sofrimento escolhido dia após dia. Sem nexo, sem vida. Não vi as dela, mas decerto correram. Persegue-me para sempre, as últimas imagens da sua partida; uma mala, meia dúzia de farrapos, duas crianças, e uma dose de coragem do tamanho do Mundo. Valeu que a tinha, ou se armou dela. Senão por estas horas, os restos de vida dura, decerto já jaziam, num qualquer cemitério, perdido no meio da Serra.

Todos fazemos escolhas. Todos podemos errar. Todos podemos enveredar por caminhos tenebrosos. Todos temos de saber que as nossas escolhas são nossas e dos que nos rodeiam. Muitos de nós somos egoístas ao ponto de achar que a nossa vida é nossa, e de mais ninguém. São burros os que pensam assim.

3 comentários:

  1. Mas uma vida que se passa a colocar os outros em primeiro, há um (ou mais) momento de egoísmo pontual que nos leva a fazer coisas das quais nos arrependemos a vida toda...mas esse momento, de puro egoísmo em que esquecemos que outras vidas se entrelaçam com a nossa,é o momento que nos salva...da depressão...da revolta e nos traz um pouco de cor a uma vida desbotada, ou que pensamos estar desbotada.
    Muitas vezes são esses momentos de puro egoísmo que nos fazem dar valor ao que temos...o depois, bem, para o depois fica a consciência pesada e a promessa de não existirem mais momentos desses...de puro egoísmo.

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  2. Também não posso deixar de concordar ctg :)

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