quarta-feira, 28 de março de 2012

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Ainda me lembro da Mariana e do João, que me diziam em tempos, e inundados de boa vontade, que tudo na vida tinha um sentido divino. Eu, portadora de uma mochila equipada com tenda, saco de cama, lanterna e outros utensílios que levava nas costas, juntamente com uma ingenuidade que trazia dentro do corpo, que era bem capaz de atingir o tamanho do mundo, munia-me de boa intenção e julgava que tudo se geria sobre esse nobre princípio. E acreditava naqueles dois que me ensinaram a estar sempre alerta, a cuidar dos animais, das plantas  e das pessoas, e considerava ainda a bondade das gentes.
Mas depois fui crescendo e a realidade que encontrei foi tramada. Um mundo a atirar para o estranho, onde a divindade como eu imaginava não encontrava cabimento e lugar, e onde o desconforto parecia por vezes encontrar-me e prender-me junto dele, o danado. Hoje por exemplo, quando encontro notícias, como em tantos outros dias, de pais que abusam de filhas, de mães que abusam de filhos, de adolescente que parem bebés escondidas do mundo e os colocam no lixo, dou voltas e procuro, juro que procuro, a divindade da situação. Viro-as do avesso, retorço-as por dentro, disseco-lhe as entranhas, volto a colocar tudo no exacto lugar, e consigo até encontrar alguns motivos ou justificações para que as coisas aconteçam de determinada forma. Só não consigo é encaixá-las dentro de um terreno divino, o que é uma pena, porque se tal coisa me fosse realmente possível o meu descanso seria muito maior, e eu estou mesmo a precisar de sossego.

5 comentários:

  1. Não podes tirar a responsabilidade dos actos a quem os pratica e culpar a Deus por tudo. Esse é o caminho mais fácil. Certo?
    Sempre alerta! :D

    viagensnomeucaderno.blogspot.com

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  2. Caro Tiago está equivocado. Não culpo Deus por nada. Por nada mesmo...

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  3. Não me parece que haja qualquer divindade capaz de explicar determinada situações. Não acredito no determinismo, caso contrário aina acabo a dar razão aos blogs onde me obrigam a justificar que não sou um robô :-)
    Adenda: Olha olha! quando ia a publicar o comentário, lá veio o pedido!

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  4. Tenta ver que Deus dotou o homem de livre arbítrio. Há pessoas que escolhem ignorar o Bem ou por não o conhecerem ou por não acreditarem em tudo de bom que pode advir daí. Cada vez mais acredito que todos nascemos bons e todos merecemos oportunidades (sim, é algo díficil de se conseguir)

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  5. A pureza da nascença talvez me convença, a do crescimento é mais delicada. Acredito porém que é o próprio Homem e a sua ambição que danificam quem nasce, e somos um reflexo do que crescemos, obviamente. Onde começou esta adulteração, não sei, é uma incógnita, mais ou menos como a do ovo e da galinha. Quanto a Deus, enfim, não me cabe julgá-lo, quem sou eu. Espanta-me apenas que a existir, exista desta forma. Não sofrem os maus, sofrem os que vão no caminho do crescimento, e que são dependentes desses maus, o que faz com que com o tempo, também o sejam. E o reverso, existe onde? Como esperamos, por exemplo, terminar a delinquência dos que vivem no desamor, no desrespeito, na violência? Serão eles os verdadeiros culpados? É um círculo infinito, a não ser, claro, que alguma divindade intervenha, que nós, tal como somos, estamos impotentes.

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