quinta-feira, 8 de março de 2012

E tantos que eles são...

O que me assusta nem são bem os números elevados, como por exemplo aquele que diz que no Porto vivem 33 mil idosos sozinhos. De entre esses, existirão por certo muitos ainda capazes de o estar. O que me assusta são os outros, e os outros também são muitos. São muitos os que me batem à porta sem poder ficar, porque o dinheiro que auferem não chega. São muitos os que nem chegam a vir, porque não têm como. São muitos os que habitam em habitações isoladas, sozinhos, não só na cidade, mas em aldeias distantes. São muitos os que racionam o que têm para o pão, a água, a luz que poupam ao infinito, e os fármacos, dos quais tomam só metade do que deveriam. São muitos os que por isto são entregues a cuidados duvidosos, sem condições dignas, como se já nada fossem, quando ainda são tanto. Serão sempre, até à morte, mas porque raio ainda existe quem possa achar que não? São muitos os que ficam esquecidos de um mundo um tanto ou quanto estranho, que parece centra-se no início para posteriormente esquecer o fim, como se este não fizesse parte do caminho.
Talvez até fosse bom, e na linha de conduta que encontro, definir um limite para a existência, altura em que, e se nada nos levasse até lá, alguém executaria a tarefa de libertar o mundo destes pesos medonhos, capazes de nos tirar sossego e de nos pedirem tanto, quando já nada nos dão. Esse limite poderia dar-se quando a fronteira da independência se ultrapassa, e quando a necessidade de cuidados se assume necessária. Viveria tudo muito mais em sossego, sem estas gentes já velhas que se atafulham cada vez mais em lares clandestinos e pestilentos, e que temos a obrigação moral de visitar de vez em quanto, em traje de Domingo, de preferência munidos com uma caixa de pastéis de nata quentes. Este fim por nós definido, libertar-nos-ia de tudo isto. Acabavam-se as estatísticas pessimistas das quais ninguém gosta, os hospitais recheados de gente que não tem quem a receba, os incómodos de olharmos para a miséria que nos entra para dentro do corpo e nos desconforta o estômago. As pessoas gostam mais de flores, alegria e gente que cheira a perfume. O resto, o melhor é esconder debaixo do tapete e fingir que não sabemos que existe, como existe, ou sequer se existe. Bemvindos, isto, e mesmo que não acreditem, somos muitos de nós.

1 comentário:

  1. Mais um belíssimo post. As pessoas gostam de alegria e perfume - que verdade enorme, e tristemente catastrófica, muitas vezes.

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