segunda-feira, 26 de março de 2012

Influências

No centro da mesa escorrem palavras de um lado para o outro. Estancam numas bocas mais medrosas, fluem nas outras, enquanto uma mulher de olhos azuis, muito grandes e esbugalhados, parece coordená-las, armazená-las, torná-las em quase leis para depois as voltar a expelir, devidamente ordenadas e colocadas no sítio que pretende que tenham. A envolta submissa, quase feudal, absorve aquilo que é dito e venera, sem vénia ou sem aceno de cabeça, não chegamos a tanto, não existem regimes perfeitos. Por vezes surgem junções duvidosas. Palavras que se atropelam, ordens que nascem retorcidas e já ineficazes mal lhe saem da boca, meras dilatações que lhe escorrem do corpo, um local recheado de dúvidas que esconde, inseguranças que disfarça, medos que encobre com a pele. É agora que a plateia se levanta, penso meio à distância, uma distância muito estranha que não me protege da conversa alheia, da qual tento abstrair-me mas em vão, que a proximidade, o ouvido apurado, e até, quiçá, o excesso de curiosidade, não me permitem o sossego que esperava na tarde domingueira, para a qual o jornal não bastou para preencher. Não foi, não se levantou, e resolvi então comer um gelado. Poderia ser que enquanto o lambesse, enquanto me escorressem para a boca líquidos doces e frescos, o meu corpo descontraído e deliciado se distraísse daquele manuseamento de mentes, algo que não me é estranho, e com o qual já privei bem de perto, e que talvez por isso me deixou com uma espécie de urticaria assanhada, quase dolorosa. Verdadeiramente incómoda, pelo menos. O gelado, engolido depressa e em sofreguidão, não se verificou suficiente para me distrair os sentidos, demasiado cativados e espantados pela fixação da envolta, aturdida por aqueles olhos azuis esgazeados, poderosos, provavelmente possuídos por alguma grandeza diabólica, capaz de maquinar o mundo e transformá-lo numa aberração. Nisto comecei a sentir medo, e resolvi ir para a relva.
Não voltei a olhar para a mesa. Ia-se a ver e se o fizesse, talvez até incorresse em algum risco de alienação, podendo o meu corpo levantar-se, dirigir-se àquele centro e sentar-se, a fim de absorver as leis que ali se ditavam em forma de razão, pura, imaculada, grandiosa.

( E logo eu que não gosto nada de razões puras, severidades, ordens e verdades absolutas. Queria saber o que seria de mim depois daquilo, perdida no rigor da inexorabilidade.)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixar um sorriso...

Seguidores