sexta-feira, 9 de março de 2012

Dulce

Passei hoje por ela, não a via há muito. O corpo vestido de preto parece desaparecer devagarinho, quase como se o tempo que lhe tem levado a alma lhe levasse também a carne, e a deixasse viver apenas de ossos e de pele, numa tez baça, cinzenta, já muito enrugada. Na boca segurava um cigarro espalmado pelos dedos e pelos dentes, partes dela que ainda existem em força, ao contrário das pernas, dos braços, do tronco, que abanicam ao vento, frágeis de meter dó. Estanquei-me na sua fronte e agucei os ouvidos. Quase que juraria que se o vento parasse, lhe conseguiria ouvir o bater dos ossos chincalhando uns nos outros, clic, clac, cloc. Olhou-me e sorriu-me com um rosto encovado, uma cara envelhecida apesar dos poucos anos pelos quais já passou. Vinte sete, vinte e oito, por aí. Não soube muito bem o que dizer-lhe, e fico aflita quando isto me acontece. Podem faltar-me muitas outras coisas, várias vezes ao dia, mas as palavras raramente me fogem. Quando tal coisa se me desaparece, sinto-me imprestável, fraca, mortiça, um farrapo de gente.

Mesmo atrás dela caminhavam os três que já trouxe ao mundo, todos saltitando alegremente enquanto chupavam uns chupa chupas vermelhos que pareciam deliciosos. Têm todos um ar limpo e cuidado, e contrastam com a mãe num contraste estranhamente exagerado. Não fosse eu saber que lhe pertencem e julgaria que aquelas três alminhas se encontravam sozinhas e perdidas no mundo, que dela não seriam com toda a certeza.

( Estes cenários, e não obstante a riqueza dos pequenos, afligem-me. Já não me afligem muitas coisas, mas existem algumas às quais não consigo imunidade. Afligem-me não só agora, mas daqui a muito tempo. Não me digam que a vida é hoje, e que o futuro não nos pertence. O futuro de três crianças pertence muito à mãe que lhes dá colo, todos os dias.)

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