sexta-feira, 23 de março de 2012

Maria

Maria não suporta que lhe toquem no corpo. Um facto estranho, quase descabido, tendo em conta que o ser humano precisa do toque para que a alma lhe cresça, sendo muito dele que se alimenta, primeiramente numa relação materna, próxima, visceral, posteriormente em outros tipos de toques, de contactos, de ligações, todas elas fundamentais para um desenvolver saudável. Não suporta que lhe toquem no supermercado, indevida e casualmente, por considerar uma invasão de espaço. Não suporta que lhe toquem no autocarro, um sítio medonho, atafulhado de pessoas desconhecidas da vida, mas imediatas no sítio onde se encontram, na mesma hora, no mesmo local, na mesma direcção, um conjunto de circunstância propícias a uma aproximação desmedida das gentes, que lhe invadem a essência do seu respirar, um direito que é dela, mas que ninguém parece respeitar. Não suporta os apertos de mão que a cumprimentam. São sujas as mãos das gentes, sabe-se lá o que fizeram, o que podem acartar nos espaços enrugados, por debaixo das unhas, nas palmas lisas ou encrespadas, nos anéis que lhe ornamentam os dedos. Não suporta, e no seguimento, o toque no marido que a afaga e que tenta invadir aquilo que é seu, num achego que lhe cerca a alma em desassossego, e lhe prende o corpo que recusa entrega, pertence apenas a si e a mais ninguém. Por vezes tenta ceder, sente-se estranha, reage. Inunda-se de coragem, e tenta abstrair-se do roçar dos dedos pela sua pele, enquanto para isso profere palavras, seguidinhas umas nas outras, histórias que necessita de expulsar para fora sob pena de engasgar o corpo, cheio, envergonhado, entumecido de sentires fortes e intensos, que se expelem desgovernados. No final respira exausta e combalida. Sempre assim e até hoje.

( O espaço vital é um terreno estranho e ambíguo. Pode ser curto, pode ser longo, pode até ser quase inexistente. Nos casos de reservas intransponíveis reflectem-se questões internas de carácter profundo na organização do Eu. Freud, que eu amo de paixão, compreendeu e explicou isto como ninguém. Eu, mera curiosa, vou tendo sérios laivos de ambição.)

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