domingo, 18 de março de 2012

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Existem pessoas que procuram bens no lixo, facto que apoquenta as autarquias do País. A responsabilidade da recolha e os possíveis lucros estão exclusivamente destinados ao Município, e por isso levantam-se questões importantes, dada a diminuição da quantidade de resíduos recolhidos. Parece-me a mim um contra-senso. A partir do momento em que deposito um saco de lixo num contentor, a propriedade sobre o que ali deixo já não é minha. Bem sei que o contentor é um local específico, abrigado por leis regulamentadoras, e que de facto os direitos são camarários. Mas tendo em conta a conjuntura onde se inserem os caixotes, um Pais descalço de condições básicas e de manutenção das necessidades fundamentais das pessoas, consegue chocar-me mais esta preocupação exagerada, ainda que inundada de fundamentos que eu não compreendo bem, do que o facto dos desperdícios poderem ser aproveitados por quem deles necessita. Não simpatizo, obviamente, com a imagem de gente que colhe lixo para proveito próprio e por necessidade. A necessidade extrema é sempre uma questão importante que me perturba o pensamento. Ninguém consegue coerência num estado extremo, seja ele qual for, e muito menos num estado de carência. O Ser Humano, e a bem ser, nunca deveria ser sujeito a derradeiras provações. Perde-se a dignidade, experimentam-se sofrimentos tremendos, contorna-se a vergonha e sobrevive-se.

(E no seguimento, leva-se lixo às escondidas, em hora marcada, não vão ser vistos. É bonito? Não. Deveria acontecer? Não. Mas por questões muito mais profundas do que o prejuízo camarário.)

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