segunda-feira, 19 de março de 2012

Lua

Saiu de casa entregue à lua. Estava grande, não havia como fugir-lhe, quase que pode jurar que ainda dentro das quatro paredes que a envolviam, a mesma já a guardava, ao longe, espreitando pelas frestas da porta e das janelas, por onde escorria em forma de luz ligeira, muito ténue. Lá fora a intensidade acentuou-se, sentiu que entrava para dentro do seu corpo e se aninhava no seu peito, calma, discreta, inundando-a de sentimentos fortes e seguros, que queria guardar para si.
Encostou-se na árvore do jardim e deixou que ela lhe falasse ao ouvido. Aguçou ainda todos os outros sentidos do corpo, colocou-se numa posição de conforto e atreveu-se a escutá-la, ainda que sabedora de que a lua poderia levá-la por caminhos intensos demais, para o seu magro ser suportar. Não a afligiu tal pensamento, não lhe causou sequer qualquer temor, que a vontade que tinha em escutá-la era de tal forma urgente, que abafava todos os sentimentos que pudessem tentar segurar-lhe os sentidos, absorvidos, manipulados, quase alienados por aquela imensidão que transformava a noite num local luminoso, tranquilo, apetecível. À medida que a escutava, conforme se fundia com as suas palavras doces, sentiu que o poder que emanava era qualquer coisa de transcendente, não podia sequer fugir-lhe, se naquele exacto momento o procurasse fazer. O seu bom senso, treinado a preceito durante anos a fio por uma vida irrequieta e travessa, dizia-lhe que voltasse para dentro, que se resguardasse, que ao menos se tentasse tapar minimamente sob a mísera protecção das paredes, mas ao invés disso deixava-se ir, cada vez mais profundamente, cada vez mais plenamente, sempre mais internamente.
Houve um momento em que abriu os olhos e resolveu olhar a lua de frente. Não era sensata aquela entrega exacerbada, como se a pertença fosse o único caminho e a vontade uma ninharia sumida, quase inexistente, uma réstia diminuída por qualquer coisa transcendente, absorvente, magnifica. Perante a imensidão que encontrou logo após abrir os olhos, diante da luz que a acolhia com desvelo, defronte do sossego encontrado, assumiu finalmente render-se.
A nossa rendição pode ser qualquer coisa de sublime. A lua, talvez a mereça.

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