sábado, 31 de março de 2012

Pés

Um dia sentiu-se cair por uma ravina a uma velocidade estonteante. Percebeu a fraqueza da sua vontade, pois por muito que quisesse estancar no caminho, mesmo até quando se agarrava a algum galho forte e sadio, as suas mãos sempre se abriam, sob uma vontade que lhe vinha forte de dentro do corpo, e o caminho continuava, sem nunca chegar ao fim. Caiu assim tempos infinitos, enquanto a pele lhe ganhava umas crostas fortes, quase impenetráveis. Sua avó falara-lhe em tempos que ganhara isso nos pés de tanto andar descalça nos campos, transportando cestas de comida para os irmãos que trabalhavam de sol a sol. Espinho que a atacasse caia sempre redondo no chão, perante a robustez dos seus pés, secos e amarelados. De quando em vez ao Domingo, dia da missa, do almoço em casa e do sossego ao sol da tarde, pegava numa faca e desbastava-os, com jeito, não fosse golpeá-los e deixa-los em sangue, perdendo assim a protecção do tempo, das corridas, da vida.

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