domingo, 1 de abril de 2012

Olhares

Sai já noite escura. Dei uma volta pequena, reduzida ao cumprimento da circunstância imposta e regressei. Pelo caminho vou vendo com uns olhos já velhos e cansados, as gentes que se encostam nos passeios com copos nas mãos, os miúdos que agarram cigarros com força, as mulheres que em círculos de três, máximo quatro, falam dos filhos, das roupas que vestem, dos maridos que ao longe fazem exactamente o mesmo que elas, com mudança clara de temática. A música deveria impor-me alguma distracção, o ar frio da noite dever-me-ia abalar os sentidos, a envolvência deveria acolher-me, tal como se fosse uma concha, afinal estou na minha casa. Não a censuro, ela continua exactamente igual. Fui eu a desertora que se refugia amiúde em outros mundos, onde não levo com olhos que não me apetece que me olhem. Não aprecio certos tipos de olhos. Gosto de olhares doces, olhares de amizade e rejeito claramente todos os olhares interesseiros, independentemente do interesse impresso na expressão, no tamanho da pupila, no batimento das pálpebras. Aprecio, e nesta sequência, olhares soltos, que me olham como pessoa. Percebo as dificuldades sérias de quem faz de outra forma em perceber esta minha embirração, nem sequer condeno esta incompreensão que manifestam, com culpa totalmente imposta a mim e a mim mesma. A normalidade talvez fosse até a abertura aos olhares invasores, curiosos, interessados, e a todos aqueles que me apetece retirar do mundo, porque me revelam aquele interesse pequenino e mesquinho que muitas pessoas expelem por todas as reentrâncias do corpo, pele, gestos, andares, olhares, e que não são mais do que a nossa natureza pura, que eu conheço tão a fundo, e que por isso me afasta tanto.

( Fico especialmente com a sensação de que ninguém sabe viver devagar. Não há lugar destinado para a calma, sendo a intensidade da noite uma corrida sem fim, destinada a albergar dentro do corpo o maior numero de coisas possível, nem que por isso o pobre se esvaia enfartado em fluidos, odores pestilentos, palavras incautas e frivolidades antagonicamente volumosas.)

1 comentário:

  1. Olá CF

    Eu também não gosto de "certos olhares".
    Cada vez que olho, questiono com a célebre frase:
    "Que dizem os teus olhos?"
    Quando não "sinto" uma mensagem verdadeira, também me "fecho".
    Se serve de consolo há mais pessoas como a CF. Mas já não é a primeira vez que "sinto" afinidade com as palavras que escreve!
    Um abraço e Boa Páscoa.

    Maria

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