sexta-feira, 27 de abril de 2012

Música

No caminho ouço música. A música acompanha-me sempre, tem por hábito acolher-me nas notas, embrulhar-me em acordes, por vezes transportar-me aqui ou ali, a um qualquer sitio ou pessoa ida e por qualquer razão mais estimada. Existem algumas que me entram dentro do corpo e me fazem saltar de alegria, abanar-me, dançar sentada enquanto dirijo nas curvas estreitas, um excesso de demonstração de emoções que deveria guardar para outros recatos, e não distribuir de forma desregrada, perdulária, quase lânguida, pelas estradas, as árvores, os pássaros e outros seres vivos que encontro no caminho. Por esta hora por certo existirá gente que me julga desvairada, possuída por um qualquer ser demoníaco que me faz vir naqueles propósitos, ao som de diversos sons que nem vos conto, coisas antigas algumas delas, mas eternamente minhas. Existem outras que me sossegam ou até me entristecem, e que me fazem olhar o horizonte com uns olhos pequenos, brilhantes, chorosos. Uns olhos um tanto ou quanto estranhos, até porque não combinam com a vivacidade do meu rosto, devidamente ornamentada a cor trigueira, pintas castanhas e outras traquinices, algumas delas motivadoras de lutas severas, com vista a exterminação, que felizmente nunca consegui concretizar. De quando em vez ouço fado. Delicio-me sempre com os versos cantados com o fervor de uma alma, acutilados suavemente pelo som da guitarra portuguesa, uma mestre na arte de criar música. Também aí viajo no tempo. Não propriamente distante nas horas, nem tampouco no espaço, mas assustadoramente longínquo na vida.

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