domingo, 29 de abril de 2012

Marcas

Na mesa cabia sempre mais um, o que me fazia crer que as coisas do mundo têm um tamanho infinito, que só trava se quisermos, quando quisermos e onde quisermos, podendo até não parar nunca. Uma crente na importância do crescimento como eu, estabelece de imediato um paralelo entre estas e outras questões que me acompanham, porque as nossas capacidades são os nossos reflexos, as nossas pessoas, o tamanho de quem nos constrói. O sitio sempre foi velho, os bancos sempre foram coxos de perna, os talheres encardidos e tortos, os pratos rachados, os copos desemparelhados.Comia-se a galinha à qual se tinha cortado o pescoço na véspera, acompanhava-se com arroz regado a sangue e vinagre, e no final comia-se uma sopa feita na panela do lume, que fervilhava horas a fio e que a constituía num pitéu digno dos Deuses. Na cozinha como em tanto, costumo dizê-lo, um dos segredos está no tempo da feitura. Na sobremesa, e dependendo da época do ano, poderiam vir figos, nêsperas, morangos, ou então arroz doce, cozido em leite e polvilhado com canela que deixava uns riscos fortes que guarneciam o branco delicioso. Não sei porquê mas a vida encarregou-se de cortar a caminhada. A idade teima em levar os velhos que já não suportam o mundo, ainda menos do que o contrário, ou então não sei, serão ambas. A lei da vida talha percursos, redefine linhas, reorganiza estratégias, com mais ou menos pessoas, mas a quebra sente-se sempre. Com força, como se entrasse de estocada dentro dos corpos, que seguem, mas que reúnem no corpo a tradição do percurso, os legados das gentes, as marcas indeléveis do cheiro a violetas.

( As violetas estavam no canteiro ao pé da janela do quarto onde se rezava o terço. O cheiro entrava e inundava a pequena divisão, o que fazia com que eu gostasse muito daquele momento.)

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