segunda-feira, 16 de abril de 2012

Amanhã, à mesma hora

Sentou-se e de olhos esbugalhados e iniciou-me um discurso muito concreto, com cada palavra colocada no local exacto onde deveria estar. Gosto destes discursos, traduzem-me um interior pensado, reflectido, e não um qualquer ajuntamento de ideias amachucadas umas nas outras, emaranhadas e misturadas, sem que eu saiba muito bem por onde começar. Quando encontro dessas, ando às cegas. Entro com jeito e à defensiva, ora aqui, ora ali, e muitas das vezes quando dou por mim, já nem sei onde me encontro. Perdi-me também, num terreno bravio e não raras vezes pantanoso, que me obriga a uma ginástica considerável, além ofício. Relembro então Carl Jung, que afirmava a importância da alma, muito para além da técnica. O sermos nós antes de sermos qualquer outra coisa, o que nos permite, e quando interacção com outro ser humano, uma proximidade mais efectiva, que por outro lado nos exige empenho para além do razoável. Ela, pelo contrário, sabia exactamente o que dizer-me. O assunto, delicado, envolvia cortes no corpo, uma doença que resolveu assombrá-la, mas contra a qual já delineou um plano perfeito. Os médicos tentaram cercá-la, retorcer-lhe as voltas, cortar-lhe mais um pouco como margem de segurança, coisa que prontamente recusou. Se o mal estava ali, não admitia cortar a envolta, a não ser que lhe provassem por A mais B, que a envolta também estaria doente, coisa que ninguém conseguiu fazer. Sendo assim, quem manda é ela, e ela não quer que se corte. Quem a olha de fora, não a imagina zelosa do corpo a esse extremo, mas quem a escuta, depressa percebe que o cerne não lhe está no corpo, mas sim na alma. É nela que também não admite que toquem, iriam além da sua vontade.O bocado ambicionado pela médica oncologista, pertence-lhe, e não há-de engrossar as margens de segurança pelas quais os médicos se regem, por uma questão de estatística. Mais ou menos a meio, começo a recear que a obstinação dela a pudesse levar até algum local de difícil retorno, mas ainda assim, percebi que o caminho era aquele. Lá em casa, entre não e sins, resolveram apoiá-la.

Entretanto passou o tempo. Entra outra vez e aquilo parece que já passou. Não me olha com olhos de vitoriosa, coisa que por certo eu faria no lugar dela. Gosto de ter razão, é uma coisa já longínqua, quiçá a precisar de divã. Olha-me antes com um olhar tranquilo e de apreço supremo por toda a gente que a respeitou. A ter seguido o impulso da equipa,  hoje não estaria inteira. Nem por fora, nem por dentro, junções estas demasiado perigosas e limitadoras da capacidade de continuarmos a viver sem medo.

(Não sou a favor nem contra. Talvez também tenha tido sorte, que de resto é o que todos temos de ter, todos os dias, quando saímos de casa pela manhã, e por ai fora até chegarmos ao outro dia, exactamente à mesma hora.)

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