sábado, 7 de abril de 2012

Amêndoas

Sempre gostei de umas de licor em forma de morangos, pêras ou outros frutos, que o meu pai comprava avulso na pastelaria Belária. Vinham num cartuchinho, nesta altura da Páscoa, e eu comia uma por dia, duas vá, se a gula se assanhasse, mas nunca mais do que isso,  para fazer render a fruta ( palavras da minha querida avó). Isto estendia-se a outras coisas simples da minha infância, que me chegavam amiúde, doseadas, mas que faziam com que eu fosse uma privilegiada, haviam diversos meninos na aldeia que não lhe tinham acesso. Os pais trabalhavam na fábrica do Costa, curtiam peles mal cheirosas de sol a sol, e aviavam as necessidades básicas e poucas mais na loja de Alice, sendo que o único acepipe que provavam por esta altura eram as amêndoas lisa cores, das quais eu também gostava. De entre todos lá existia um ou outro mais afortunado, que tal como eu tinha direito a uma qualquer novidade vinda do mundo, e que poderia ser um ovo de Páscoa, um folar de Olhão ( adoro folar de Olhão), ou umas amêndoas de chocolate. Diz minha mãe que o meu pai ganhava uns poucos contos de réis, distribuídos pelo que a família precisava, sendo que lhe valia as hortas e as criações de animais, onde se engordavam coelhos, galinhas, patos e gansos, e se semeavam batatas, alfaces, abóboras para a sopa e tomates para o doce que se barrava no pão.
No Domingo comia-se sempre cabrito assado, na casa da avó, que o temperava e enfiava dentro do forno num tabuleiro de barro envernizado. Gosto de comida confeccionada em recipientes de barro, sabe-me sempre a antigamente. Acompanhava com batata de cebolada e salada de alface com hortelã, um tempero pouco frequente mas delicioso, que nunca faltava lá em casa.

( Não me perguntem, não vos sei explicar o tipo de saudades. É a nostalgia do crescimento, deve ser isso. A época não era de fartura, mas ensinou-me mais valias importantíssimas que não esqueço nunca. Vivo hoje preocupada em transmiti-las ao meu filho, no meio de doses industriais de estímulos diversos, excessos de consumos, bens adquiridos ao sabor das vontades, sem se reconhecer o gosto, provado devagarinho e com cautela, como o das minhas saudosas amêndoas de licor)

1 comentário:

  1. Também tenho saudades dessas amêndoas de licor. E curiosamente, ultimamente também tenho tido mais.

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores