sexta-feira, 6 de abril de 2012

Augusta

Augusta não sabia falar mais do que das suas doenças que a atormentavam todos os dias a fio, e que iam dos bicos de papagaio ao ácido úrico, passando pelos intestinos flatulentos e ainda por uns malvados calos que lhe comiam os pés, e que se assemelhavam a umas lagartinhas, que se alimentavam devagarinho das peles amareladas e grossas que lhe protegiam a carne, enquanto ela aviava bolos de ferradura avulsos, embrulhados em papel pardo. Gostava de apregoar a quem frequentava o seu humilde estabelecimento de aldeia todas as mazelas que Deus lhe atribuiu em desgraça, causando assim uma qualquer condolência que se sentia forte, vinda de lá do fundo do peito, um estimar que toda a gente parecia sentir com uma hombridade digna de ser dirigida a uma qualquer alteza, e não a ela, Augusta, mísera pessoa, habitante de um lugar pacato, mulher de um homem gordo e mal disposto, mãe de um pobre moço que morre de amores por Júlia, que entretanto casou com Gustavo, mas que nas horas vagas o vai deixando em banho Maria, e de Felícia, uma rapariga entradota que apenas interessou ao cigano, um homem altivo e de olhos azuis, lindo de morrer, mas que apesar disso não era partido decente para ninguém e muito menos para Felícia, menina de boas famílias, capaz de bordar Arraiolos,  ponto de cruz e pé de flor, tecer no tear de madeira, e remendar buraquinhos sem que ninguém dissesse que ali houvera havido um. Ainda se lembra de quando ela era pequena e se sentava na escadinha da loja, logo após ter pedido à mãe uns esparguetes compridos que embebia em água, e que serviam para fazer umas papas  ralas que dava às bonecas, com muito cuidado e dedicação, não fossem morrer engasgadas. Logo após a brincadeira, e num primor herdado de sua mãe, avó, bisavó, e muito provavelmente de outros antepassados ainda mais longínquos, arrumava as pobres barrigudas numa salinha pequena onde todas residiam, cada uma dentro da sua caixa específica, de onde não havia ordem de serem novamente retiradas, a não ser com autorização expressa da mãe. Felícia sabia exactamente quando solicitá-la. Tal pedido não podia nunca ser feito em hora leviana, descuidada, potenciadora de uma negação que não queria, em caso de causalidade confirmada. Esperava então por detrás da porta da loja uma altura em que uma qualquer senhora entrasse e procedesse ao avio da semana, para logo aparecer de imediato, no exacto momento em que as dores tomavam conta de Augusta, em que os calos lhe levavam para além dos pés os tornozelos, as canelas e até os joelhos, em que o intestino dava voltas medonhas e quase lhe saia pela boca, e em que o seu coração palpitava com muita força, prestes a explodir, coisa que nunca aconteceu não se sabe como. A emoção sentida era de tal ordem, que as únicas palavras que lhe saiam da boca na hora da decisão estavam totalmente subjugadas à vontade de continuar o rol da desgraça, o relaxamento diário do corpo, coisa à qual uma criança traquina e endiabrada não trazia qualquer préstimo valioso. Mal lhe via então a cabeça , mal Felícia espreitava na porta, e era vê-la com o esparguete já erguido, para que o cozinhasse, lhe desamparasse a loja e a queixa sentida,  e lhe permitisse o usufruto pleno da pena e da ovação.

( A lei da compensação existe há tempos infinitos. Mudam os utensílios, as necessidades, os interesses e os argumentos. Mantêm-se a natureza e a ambição.  )

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