terça-feira, 17 de abril de 2012

Vamos num pé, e vimos no outro

Outro dia saiu-me da boca de rompante, vinda de dentro da minha caixa esquecida que de vez em quanto abre os olhos ao mundo, emerge de cá de dentro, e sai-se com coisas do género. Anda, despacha-te, digo-lhe. Vamos num pé e vimos no outro, perante a insistência de ficarmos em casa, sem pão, sem notícias em papel, sem o sol do dia que me faz uma falta imensa ao fim de semana. O sacanita olhou-me de lado, com um ar intrigado, e pergunta-me o que raio era aquilo, de ir num pé e vir no outro, se para irmos e virmos precisaríamos dos dois. Sorri-lhe, expliquei-lhe, e relembrei alguns outros ditos de outrora. Fazem parte de mim os ditos de outrora, os hábitos vividos na minha meninice, enquanto pedalava numa BMX encarnada ofertada pelo meu pai. Vais prá moina, diziam-me Arnaldo, um sapateiro que passava horas do dia na paragem da carreira que levava as gentes para Alcanena, aos dias de mercado, ou para qualquer outro sítio, não muitos, que os percursos possíveis eram escassos e próximos. Os Olhos D'água, por exemplo, seriam um deles, quando o calor se acendia e o rio se enchia de gente, que nadava nas águas geladas que brotavam da serra, no meio dos peixes, do lodo, das pedras e do lixo que boiava. Arnaldo já não remenda sapatos, soube há pouco, cansou-se disso, e agora passa ainda mais horas do dia dentro da paragem onde já não param carreiras e onde já não sobem e descem pessoas. Resta-lhe o sítio. Colocou-se lá um banco de madeira fixo, para substituir o outro já carunchoso, e a casinha de metal rectangular serve agora de albergue, do vento, da chuva, do sol, depende, sendo ali que os velhos da aldeia se juntam, enquanto o tempo passa, devagarinho, tal e qual como se não existisse.

( Qualquer dia, um em que me apodere de algum do tempo que lhes sobra, ainda lhes vou passar à frente, vinda da casa de Dona Carmina, em direcção à loja de Alice. Cá por dentro irei repetindo baixinho, três papo-seco e um saco de arroz, três papo-secos e um saco de arroz, três papo-secos e um saco de arroz...)

4 comentários:

  1. Ola CF, a minha mãe não pára de elogiar a sabedoria popular e eu tenho de concordar com ela. Frases feitas à custa da experiência que a vida lhes deu tem o seu valor. Claramente esse sítio devia ser baptizado como o sítio do Arnaldo, dada a estima que o próprio tem pelo mesmo.

    Um abraço

    Pedro Ferreira.

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  2. O sítio do Arnaldo:) Parece-me bem...

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  3. :):):) Que giro este texto :):) fez-me sorrir. Também tive um sapateiro na minha infância mas não tenho boas recordações dele :(. Esta sempre a dizer que ia lá a casa roubar o meu irmão, quando ele nascesse :(

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