sexta-feira, 16 de março de 2012

Estendais

O estendal dela era sempre florido. Lembrei-me disso porque lembrei-me dela, lembro-me dela sempre. E lembrei-me do seu estendal porque hoje passei por muitos estendais floridos, intercalados com alguns outros de tons apagados, reveladores de tristezas que se vestem no corpo e não se guardam apenas dentro da alma. Não gosto do pressuposto. Não partilho da denúncia clara e eterna de uma alma negra, que é nossa, muito nossa e não do mundo. Há coisas que o mundo não precisa de saber, a não ser que seja o mundo próximo. O restante, o que não é nosso e no qual nos incluímos por força das circustâncias, não deverá ter acesso ao nosso interior, que há quem insista em transpirar, em deixar soltar, em perder por aí como se de uma banalidade se tratasse. O meu é muito valioso. Mau ou bom é o que me fez exactamente aquilo que eu sou hoje, faz parte de mim, é aquilo que alguém me dizia outro dia e bem, mas que sentido faz libertarmo-nos do sofrimento, se ele faz parte da nossa história? A essência está então em preservá-lo, tratá-lo com respeito e dedicação, permitir-lhe que se aloje no corpo que escolheu e que o percorra, de quando em vez, porque é ali que ele pertence, é ali a sua casa, o seu sítio, trancado com umas chaves eternas e fortes, que não lhe permitirão nunca o escape definitivo. Por isso o melhor remédio é a amável convivência, mais ou menos como os defeitos do nosso corpo, aos quais temos de nos habituar sob pena de criarmos desconfortos importantes.
Pois e continuando, lembrei-me. Ela vestia sempre cores fortes mas alegres, azuis, amarelos, flores e riscas, e talvez até tenha vindo dela este meu gosto pelos padrões poderosos. Não era viúva, é bem certo que não, mas não deixava por isso de ter motivos mais do que fortes para se entupir em trajos negros, lenços atados no pescoço curto, xailes pesados e fortes. Mas não. Ela e o seu estendal eram sempre floridos, e emanavam uma delicadeza saudosa, um zelo estranho, porque era distante. Não era propriamente dada a afagos, era isso, e foi a primeira pessoa a ensinar-me que as preocupações e os cuidados podem vir em forma discreta, nem sempre perceptível a olho nu. Mas que não era por isso que não vinham sempre. O olho nu pode por vezes ser traiçoeiro. Provavelmente, os estendais também.

2 comentários:

  1. Eu amo seu blog , admiro a forma de como você usa as palavras para expressar seus sentimentos. Quando crescer ,peço que escreva assim também =) Todos os dias passo aqui e te leio . E a proposito,te acho tão parecida comigo . Abraços

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