sábado, 17 de março de 2012

Saberes

Soube ainda há pouco que um aparelho de clister era parte integrante do enxoval das noivas do antigamente. Julgo que se trataria portanto um uso comum, a instilação de líquidos por via rectal, que fariam o intestino teimoso funcionar de forma correcta e pontual, uma banalidade nos tempos antigos, igual a tantas outras. O dito era por norma dependurado por detrás da porta da casa de banho, e consistia num estranho objecto, normalmente feito em vidro, que se disfarçava com um vestidinho colorido a fim de passar despercebido, apesar de toda a gente ter um dependurado em algum local da habitação. Nunca me tinha ocorrido, tenho de o confessar, que tal artefacto pudesse ter uma essencialidade tão premente, que o fizesse parte integrante da lista do que vai com a noiva, em pé de igualdade com os lençóis, os atoalhados, as colchas de rendas e os panos de cozinha, os faqueiros e os conjuntos de loiça, todos eles em quantidade suficiente para que em governo durassem para a vida, e quiçá para a morte, a avaliar pelos números ideais considerados de referência.
Pela parte que me toca, confesso, tive uma experiência desastrosa com a palavra enxoval, que teve a ousadia de me perseguir desde tenra idade, em forma de muitos apetrechos considerados importantíssimos, e aos quais eu não via utilidade alguma. O maior investimento, posso dizê-lo sem incorrer em injustiças, foi feito pelas mãos da minha avó materna e pelas da minha mãe, que religiosamente frequentava reuniões de tupperware, onde me comprava caixinhas de todas as cores, onde eu guardaria alimentos e utensílios de costura, entre outros. O que eu mais apreciava nestas reuniões cravejadas de mulheres chatas, eram uns pequenos brindes que acompanhavam a compra, umas ninharias de formatos diversos que me faziam sempre aguardar ansiosamente pela chegada da caixa colorida, que de imediato se guardava dentro de um armário recheado delas e de outras inúmeras coisas, destinadas ao meu casamento. Não me apraz agora dissertar sobres as utilidades reunidas, umas terão sido úteis, outras nem tanto, que de entre a panóplia considerável e respeitadora da tradição, muito se usou e outro tanto já não. Apraz-me apenas dizer, que no meio de tanto utensílio reunido, me faltou aquele específico, que acompanhava as noivas preceituadas, que reuniam na sua posse tudo o que eu reuni e ainda um aparelho de clister feito de vidro, penduradinho com o devido vestido, na porta da casa de banho. Um enxoval como o meu merecia ter sido devidamente acabado.

3 comentários:

  1. Muito curioso. Abstenho-me de imaginar qual era a "desculpa oficial" para a oferta de tão estranho artefacto!

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  2. não fazia ideia... mas agora que penso nisso a minha avó tinha um pendurado atrás da porta :-)

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  3. Em casa da minha avó havia um. A mim, aquilo parecía-me um objecto de tortura

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