segunda-feira, 12 de março de 2012

Imortalidades



O vinil afinal é uma paixão comum aos dois, sabe a ritual, a cumplicidade. Escolhe-se o disco de entre a fileira comprida, saca-se de dentro do cartão e da protecção, limpa-se com muito jeito no veludo de cor bordeaux destinado ao efeito, e coloca-se calmamente sobre o gira discos velhinho de marca Technics. De seguida, leva-se a agulha ao local exacto onde a música toca, e no sofá, ambos escutam o som. Não são sons de agora, são sons longínquos, daqueles que nos hão-de perseguir vida fora como nos persegue o cheiro do colo da nossa mãe, ou o cheiro do sono dos nossos filhos. Abba, Deep Purple, Queen (grandes), Pink Floyd, Elvis Presley, diversos, intemporais. Enquanto gira a música as conversas soltam-se enfiadas umas nas outras, intercaladas com silêncios faladores. Gosto muito de silêncios que falam, têm inerentes verdades escondidas, sentires profundos daqueles que circunscritos a palavras nem nexo chegam a ter. Perdem-se a falar de grandes mestres que cedo deixaram a vida, vozes que se cansaram de cantar ao mundo, ouvidos que por sua vez nunca deixarão de as ouvir para todo o sempre, uma perfeita incongruência. Uma confirmação pura, incontestável, da imortalidade das gentes.

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