segunda-feira, 25 de junho de 2012

Patrícia

Ainda agora por obra de uma ocorrência que nem vem ao caso lembrei-me de Patrícia, uma antiga colega de secundário que extraía pedaços de dentro do nariz para depois os engolir. O cenário era sabido e visto por todos, e não fosse a dita ser de uma inteligência suprema, tal comportamento nunca lhe teria sido perdoado. Assim acabou por assumir um carácter de sigilo, no âmbito daquelas  verdades que todos sabem mas das quais ninguém fala, entrando directa para um âmbito de questões que muito aprecio, pelo fenómeno em si. Foi uma pena aquele percurso, e por vezes lembro-me da pobre da moça. Seguiu uma tendência casual que poderia por certo ter sido impedida pela massa social da sala, não tivesse ela o azar extremo de ser um crânio, e de se assumir como a salva vidas de muitos em caso de aflição. Assim sendo, e durante anos a fio, reuniu nela substâncias diversas que ora se expeliam ora se ingeriam, num ciclo de aproveitamento sublime, uma confirmação apoteótica da máxima de Lavoisier. Diz que é Médica nos dias de hoje, soube entretanto, coisa que não me espanta nadinha. Era capaz disso em termos de intelecto e de humanidade, que sempre se prestou a ajudar quem dela carecia. Ninguém é perfeito, é uma verdade, e Patrícia apenas comia coisas estranhas. De resto era mesmo mesmo boa pessoa.

( E poderemos ainda daqui retirar a brilhante conclusão de que o que enfiamos no estômago parece não interferir com o cérebro. Boa?)

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