segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sintonias

As pérolas redondas dão-lhe um brilho na tez baça e macilenta que outrora brilhava por si. Cansou-se e deixou de brilhar sozinha. Procurou alcances longínquos que chegou a julgar inexistentes, convenceu-se de que deambulava errada e encostou-se no negro da desventura, da desesperança, do sossego inacabado que é um sossego estranho e ansioso. Não gosto de sossegos inacabados. Fujo deles como quem foge de uma doença medonha, daquelas capazes de me levar inteira daqui para outro lugar. Raramente sossego. Sossego em pequeninos momentos que me surgem nos dias bons. Enquanto pincela o rosto de brilhos rosados lembrou-se do tempo em que o desperdício lhe tomava conta da vida. Um desperdício pelo que não alcançava, pelo que desejava, pelo sossego sossegado de quem nada procura porque já encontrou muito. Chegou a inquirir-se na nobreza dos caminhos. Chegou a questionar as escolhas em sintonia com os outros, os métodos íntegros, o aquém onde fica quem a eles se entrega de corpo e de alma como alguém se entrega a um amor quando ama. Questionou então o aquém. O que seria isto de ficar aquém, e onde se encontraria o supra sumo da existência? Usava surgir-lhe num conjunto de vivências que não tinha, de sonhos apenas sonhados, de sentires só ambicionados que desenhava a aguarela colorida mas esborratada, ténue, sumida. Foi pincelando o rosto e redescobrindo-se a si. A plenitude deverá ser qualquer coisa de próprio, de individual, género pessoal e intransmissível, e por isso mesmo passível de ser vivida e nunca transmitida, partilhada, publicitada. É nesta pertença essencial de objectivos supremos que entretanto se encontrou. Uma sintonia interna consigo, ainda que inundada de uma envolta incrédula e fugidia que se julga autoritária nos desígnios da vida mas que pouco sabe dela, quando comparada com ela mesma.

( O amor é de facto exactamente igual. Um sentimento pessoal e intransmissível vivido só por quem o sente e se entrega de corpo e de alma. Nunca tenham pena destas entregas. Nunca as chorem ou lamentem. Só uma entrega de corpo e de alma nos permite o sublime ainda que sujeito ao sofrimento, condições essenciais para que a vida faça algum sentido.)

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