quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lisboa

De lá do cimo vê-se Lisboa. Lisboa é linda vista do lado de cima, quase tanto como vista a pé, em calçadas escorregadias que não combinam em nada com os meus sapatos. Um dia tirei as sandálias e palmilhei-a descalça, e nunca mais me vou esquecer disso. Mesmo ao meu lado ficava o Teatro da Trindade, uma das salas que mais aprecio na Capital, logo a seguir à Aula Magna, por motivos que anexo a momentos bons. O poeta Jorge Palma por exemplo, já me levou lá em tempos de estudante, e conseguiu trancar-me lá dentro sem que do lado de fora houvesse mais nada. Sempre gostei desta sensação, improvável, rara, diria que quase inexistente, que trata o vazio do espaço externo porque estamos apenas e só ali dentro, naquele lugar, onde mais nenhuma hora ou sitio merece existir. Esta sensação tem-se sumido com a idade, que me leva para além disto outras coisas das grandes. Muitas não lhes sinto a  falta, resigno-me, talvez seja isso, mas por esta confesso que peno. Não declaradamente, que não gosto dessas coisas, mas cá dentro, no reservatório das saudades, choro por lugares e tempos que valem por si e que hoje me morrem tantas vezes, porque já pertenço a muitas coisas. Lisboa é verdadeiramente linda vista de cima, mas ainda há-de haver o dia em que me descalço outra vez.

( As vontades planeadas são algo que não existe. São futuro, e portanto apenas incertezas.)

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