domingo, 3 de junho de 2012

Clareza


Quando olhamos para alguém estamos longe de conseguir imaginar o que lhe vai dentro. Contaram-me agora a história, que de facto apresenta contornos cinematográficos e da qual eu estava longe, não por nada em concreto, apenas porque o desconhecimento nos transforma em autênticos estranhos uns para os outros, a não ser em casos específicos e devidamente fundamentados. E mesmo ai existem estranhezas severas, profundas, cravejadas e enraizadas, muito embora apareçam sobre outras formas que se insurgem, na ignorância do que são capazes. Adiante. Ele era rico, ela pobre, aquela história de sempre usada e abusada nos romances escritos por grandes escritores, nos filmes feitos por grandes cineastas, nas vidas reais de pessoas a sério. Ainda para mais o pai dela tinha morto a tiro um comparsa médico que deixou morrer nos braços alguém precioso, erro imperdoável cometido na época em que os erros imperdoáveis se puniam em praça pública, em mãos ou em outros artefactos que permitissem repor ordens e honras arruinadas. Findo o processo, e uma vez que o rastilho mirrou perto não permitindo que o restabelecimento da ordem continuasse por mãos secas e enraivecidas, o pobre foi preso, guardado anos a fio dentro das muralhas de uma cárcere, local onde segundo consta e por meandros que desconheço, Arminda foi fabricada, no decorrer de uma visita numa tarde ruidosa de Domingo, algures num sítio de certo recato. Bom, não sei se será bem entendida esta parte do desconhecimento dos meandros da feitura de gente, será melhor deixar esclarecido que o que eu desconheço realmente é toda a arquitectura necessária para que tal engenho se desse dentro do terreno da cadeia, de forma totalmente clandestina segundo consta, e não propriamente o mecanismo prático da execução do processo, que desse faço uma pequena ideia. Nunca o imaginei muito a fundo, faz-me alguma confusão interna inserir-me dentro das vergonhas alheias, das cruezas de corpos que não me pertencem, na leviandade de gente que se deixa escorrer pelos meandros da perdição em locais clandestinos e passíveis de vislumbre por alguns olhos curiosos que existem no mundo a cada esquina, e que nunca mais saberemos se viram ou não.
Toda esta história era sabida na aldeia onde ambos moravam e onde Arminda veio a crescer, coxa de perna por mor de uma poliomielite aguda que lhe entrou dentro do corpo. Ora sem pai ora já com ele, devidamente carimbado por uns carimbos azuis numerados que o indicavam como sendo um ser marcado pelo negrume, pela desgraça, pelo impropério cometido algures em tempos e devidamente remediado, como manda a lei e o homem, foi-se tornando crescida e engraçada, apesar da moleta que lhe segurava a anca esquerda, na qual se amparava com cuidado e delicadeza. Apaixonaram-se. Ele rico, ela a filha do presidiário, e eis que antes que se fizesse tarde, porque naquele tempo e ao contrário do que se diz por ai nas bocas das velhas devotas, também se fazia tarde muito cedo, já um ser prosperava no ventre de Arminda, acolhido pela Primavera e medrado no Verão, que ia-se a ver e já não havia remédios conhecidos para dar cabo daquele trabalho a não ser o nascimento efectivo e a posterior criação. Desposaram-se os jovens como era hábito naquelas bandas, em forma sigilosa de remedeio, e compôs-se assim uma casa improvável, na qual foi nascendo gente, agora uma e depois outra, perfazendo o total de oito que hoje já o não são. São menos, ai uns seis, que a vida encarregou-se de reduzir precocemente o número avultado e preciso, que quantos mais fossem mais terra se cultivava, mais bens nasciam, mais riqueza se criava. Não havia cá lugar a pensamentos e reflexões debruçadas nas condições financeiras, entretanto diminuídas, habitacionais ou de saúde materna, que as pessoas nasciam à margem disso tudo e ao sabor da natureza, amontoando-se pelas casas de telhas vãs e de chãos de terra batida, por onde circulava o vento, o frio, os ratos e outra bicharada que não assustava ninguém e que fazia parte da casa, dos dias, da vida.

( Tenho alturas em que invejo a leveza de outrora. Cravejada de espinhos fortes e de amarguras diversas que eram vividas como se fossem a vida, e não com o rancor da desgraça que hoje encontro nas caras das gentes. Não se apressem, não recuaria. A clareza não é sinónimo de leveza e entre ambas prefiro claramente a primeira.)

1 comentário:

  1. Já tinha saudades de te ler :) escreves tanto e tão denso que não é coisa que se faça assim, do pé para a mão :):)

    É bom que haja gente que nos recorde os meandros por onde antes andámos, antes de aqui chegar :) Hoje é tudo contrariedades vividas de cu tremido em carro próprio e casa devidamente aquecida. Filhos poucos que a vida está difícil!... não é que esteja fácil, não digo isso porque não está - tudo no seu devido lugar, ao qual gosto de chamar: relatividade. Mas que estamos a precisar de uma boa dose de coragem para, naquilo que nos faz falta - mais crianças por exemplo - nos aproximarmos mais de outras épocas, lá isso estamos :):)

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