terça-feira, 26 de junho de 2012

...

Os sustos são uma coisa para a qual nunca estamos preparados. Assumem-se como um sobressalto repentino que nos interrompe por momentos normalmente curtos, o processo de vida e de existência. Durante o mesmo, e dependendo da dimensão do que se experimenta, muito embora um susto seja sempre um susto, podem chegar a percorrer-nos vidas diante dos olhos, sentires nas veias do peito, quereres e mágoas nas ligações do cérebro que  faiscam por dentro, mesmo que isso seja imperceptível do lado de fora. O processo exige de nós para além do razoável, muito embora sejamos capazes de o aguentar, aguentamos muito mais do que aquilo que julgamos, eu pelo menos aguento. Provavelmente haverá um limite, e chegará um dia em que o meu corpo, cansado por isto e pelo resto, se definhe sobre si mesmo enquanto minga e encarquilha, quiçá antes do tempo (?). Não tenho medo de um final precoce, nem sequer amargurado, não me intimida, não me assusta, não me desassossega. Guardo porém uma fragilidade capaz de deitar por terra toda a rijeza da minha existência, guardada e resumida a algo que amo para além do mundo. É ele que me leva aos sobressaltos, me suga as forças, me esgota devagarinho desde o dia em que nasceu. Não merece a pena enaltecer as forças que dai também me nascem, são mais do que muitas, não trato por ora isso. Apraz-me e no seguimento do dia dizer, num sossego final mais do que merecido, que existem coisas que nunca deveriam acontecer a mães. As mães têm lacunas no corpo que as torna incapazes de pensar quando algo as aterroriza. E nós sem recurso à razão não somos pessoas capazes. Somos toldadas pela aflição do medo de que o mundo nos maltrate, o que de mais precioso nos deu.


( Há muito que eu desconfiava que a emoção me podia chegar a matar.) 

4 comentários:

  1. Carla, este teu texto deixou-me estranhamente perplexo. Lembrou-me um outro, de uma ex-colega de blogue e querida amiga que, quanto a mim, melhor escreve em português:

    « A Coragem

    É uma mulher cheia de medos. Medos patetas, medos pequenos, medos de somenos. Medo de magoar e de ser magoada, medo de confrontar e de ser confrontada. Medo de vozes levantadas, medo de abandonos, medo de perder o sonho, medo que o sonho nunca tenha existido.

    Grande e delicada, de colorido claro, voz macia, uma sinfonia de símiles fáceis de brandura e pastel, toca tão ao de leve o mundo que este quase não a sente. Viveu sempre na corda bamba do desprazer do marido, em função de uma noção de bem comum que é apenas própria. Como tal, assumia todas as culpas e oferecia todas as desculpas.

    Até ao dia. O dia em que viu o mimetismo nos actos da filha. Nesse dia, pegou na criança e cortou as amarras da sua insegurança. Num supetão de asa. A maior coragem é sempre a dos timoratos.»

    ResponderEliminar
  2. :) Muito bom esses texto da tua amiga, Paulo. Presumo blogues esquecidos que eu gostaria de conhecer :)

    ResponderEliminar
  3. Espero que o sossego final não tenha demorado muito a chegar. O que é que eu estou a dizer ? 1 minuto pode demorar meses.

    ResponderEliminar
  4. Carla, pode mesmo. Mas de facto na prática não durou muito mais do que o minuto de que fala. Obrigado :)

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores