quinta-feira, 26 de maio de 2011

Distâncias

Bichana-lhe aos ouvidos coisa boas de se ouvirem. Vive disso, de bichanos miudinhos e longínquos, que lhe pingam no corpo e lhe entram pelas orelhas, de forma muito doseada. Em tempos, não havia distância. Estava perto, e o descomedimento do tempos e dos espaços, levaram a uma proximidade sem fim, como que fundida. Nem bem assim se entendia, que o constrangimento de tal cercania, deixava-a lassa, quase que sem saber onde começava e onde acabava, num misto fusional e descabido, que era preciso controlar. A vida tratou-lhe disso, sem lhe exigir a ela qualquer esforço de impulsão. Julgou o final do mundo quando o moço partiu. Foi-lhe para longe, por mor do trabalho, e vem a casa uma vez por mês. Todos os dias, de manhã cedo, lhe apita um telefone teimoso na mesinha de cabeceira. Já sabe, exactamente, o que vai ouvir do outro lado. Se dormiu, dormiu, bem ou mal, bem, está frio ou chuva, depende. As perguntas repetem-se do lado de cá, com a mesma tonalidade do hábito, muito constante. O dia corre, entre afazeres diversos. As filhas são três, e é necessário cuidá-las, ser mãe e pai ao mesmo tempo. Levantam-se, vestem-se, levam-se, buscam-se, lavam-se, deitam-se, entre outros preâmbulos diversos, capazes de lhe levar o tempo, que sempre lhe falta. Julga que os dias poderiam ser maiores, que as horas poderiam ser mais e que os minutos indefinidamente superiores, que sempre lhe iria faltar. É à noitinha, que se repetem as palavras. Como correu o dia de trabalho, como estão as pequenas, o que jantaram. Às vezes, falam com elas, outras vezes não. O beijo vem no final, enviado ao longe, do outro lado de um País que se diz vizinho, para estar distante de mais. Incongruências da língua. Quando ele vem, ficam todas muito felizes. Nesses dias, os ditos soam mais perto, os afagos sentem-se, os abraços, afinal, envolvem. O telefone, sossega.

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