domingo, 15 de maio de 2011

Noites

"É noite. As caixas amontoam-se perto, arrumadas a preceito, formando uma parede frágil e lassa, que serve apenas para lhe segurar o que vai lá dentro, através dos olhos, que para o de fora, bastaria um sopro diligente de um qualquer vento que passasse, para que o abrigo se esvaísse, e o corpo lhe ficasse à mercê. Tem disso consciência, é certo, mas ainda assim, prefere-as na guarda, ainda que fraca, do que a ausência, capaz de o deixar aberto aos olhos de um mundo cruel, que vai-se a ver, e ao invés de o olhar, desolha-o, como se de uma aberração se tratasse. Deita-se, aperta-se nos cobertores recolhidos pelas mãos da Dona Natalina da Igreja, e esconde o nariz e a boca, para que o ser arfar lhe sirva de aconchego. Tem frio. Respira mais depressa, mas não lhe chega, que o rigor do Inverno faz-se sentir, pelo que se levanta, enquanto pensa por dentro como aquecer aquele corpo, fraco e combalido, totalmente incapaz perante a agrura de um Inverno, que desde sempre parece segui-lo. Nos entretantos, acende uma beata mirrada das que recolheu durante o dia na porta da Câmara. Não há porta melhor para as apanhar, que os Homens e Mulheres entram e saem a toda a hora, dão dois bafos e largam-nas no chão. É aquela a preciosidade que lhe acalenta o espírito nas noites, enquanto os outros, os que lhe deram o primeiro préstimo, se aquecem enroscados no sofá da sala ou na cama quente. Em tempos, chegou a ambicionar companhia, em momentos solitários como este, mas desistiu. Recordou-se de sua vida e da amargura sentida em cada minuto, e julgou prudente a solidão, sabendo-a fria, é certo, mas muito segura." ...

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