segunda-feira, 23 de maio de 2011

Judiarias do coração

As unhas dos pés estavam-lhe cravejadas na carne. Os pobres, cansados de sustentá-la, assim se manifestavam, a ver se conseguiam um descanso merecido, que se via tardio. Achavam-se eles na hora do sossego, e por isso, atafulhavam-lhe o corpo de dores insuportáveis, que vencia a cada dia como se de um martírio se tratasse. Já em nova assim era, que nunca o seu corpo lhe venceu a vontade. Manhã cedo, de chuva ou de sol, era vê-la na beira do rio, a lavar e a corar nas pedras polidas das bordas, os lençóis brancos onde se deitava à noite, os cueiros dos rabos dos filhos, as vestes brancas do marido. Era também ali que lavava as tripas dos bichos que enchia de carne a arroz, que atamancados com linha grossa se ferviam horas, e se comiam a gosto, em Domingos e dias santos. O caminho dos dias prosseguia para longe, para um vale de nome Carril, onde a horta germinava a bem da prole, que sem ela, nem haveria sustento que chegasse, que os tostões eram poucos, e as bocas algumas. Um deles, foi em tempos levado a casa de uma tia, para que a dita lhe desse albergue e mesa, julgo até já o ter cá trazido. Mas o pobre, já encolhido e mirrado, ainda mais se definhou, que a retirada do seio era muito para o seu corpo suportar, pelo que ficou sem pio, de noite e de dia, semanas a fio. Olhava fixamente para um sítio e ali se ficava, sem qualquer tipo de pestanejo que denunciasse sinal de vida, como se a dita, se estivesse esvaído nos ares do Inverno, que agrestes e fortes, a tinham levado sem dó. Foi feito o regresso, e ela, afinal, estava ali no de sempre, tendo-se-lhe de novo aninhado na alma, já mortiça, e quase apagada. No final dos dias, rezava orações de sustento por todos e mais alguns, fossem filhos, netos e bisnetos, e até, vejam só, pela saúde da nova vizinha, moça viçosa, a quem o marido deitava o olho escondidinho. É que por isso, e dado o ânimo espicaçado, dava-lhe agora a ela sorrisos satisfeitos, ao invés do ar azedo com que a brindava antes, todas as horas, sem haver excepção. Era magra e direita, não obstante o mal dos pés. Para além desse, tinha outros que enrodilhava dentro do corpo, havendo porém um mais forte, e que tratava o coração, que não suportava gente do seu lado esquerdo, sob pena de palpitação. Foi esse o único que nunca venceu. Foi ela, a primeira a dizer-me, que com este órgão não se deve judiar.

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