quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fraquezas minhas

Estavam no parque de estacionamento. Ela, sentada na bagageira de um Saxo, lambia um Cornetto de Morango, enquanto ele, de pé, bebericava uma mini fresca, que gotejava pingos de água para o chão. Nem os teria visto, ou não fosse a indumentaria, que nada do que faziam despoletava interesse, curiosidade, ou qualquer um outro tipo de sentimento, emergido de alguma conduta inapropriada. Eram eles em si. Nos escassos segundos em que lhes pus os olhos, saltou-me à vista a ausência de cabelo dela, no sítio do qual se encontrava uma cabeça lisinha, onde estava tatuado um qualquer bicho com muitas patas, que lhe envolvia a totalidade da mesma, até bater nas orelhas, carregadinhas de piercings. Vestia uma blusa florida, muito decotada, onde um crucifixo pousava, pendente numa corrente grossa e prateada. Dos braços, emergiam umas outras tatuagens, que não consegui decifrar, tal a quantidade. As calças de ganga, curtas e rasgadas, deixavam aparecer umas meias lilás, atafulhadas dentro de umas botas da tropa atadas até quase ao joelho. Tinha um risco negro nos olhos. Ele, contrariamente a ela, usava uma farta cabeleira unida em rastas untadas a sebo, montes delas, atadas num rabo de cavalo peçonhento, no alto da nuca. Vestia em tons cinza, umas roupas largas e sujas, e calçava um chinelo castanho de enfiar no dedo. Tinha uns óculos de sol redondinhos e espelhados. Olhei-os sem conseguir evitar, confesso. Não com alguma diferença de alturas, que os olhos são todos, sempre, ao mesmo nível, e nem me presto a qualquer um outro tipo de visão. Só não consegui evitar em mim, um ligeiro, mas ainda assim mesquinho, sentimento de estranheza. Fiquei furiosa.

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