quinta-feira, 20 de maio de 2010

Da gaiola

Descobri hoje que um vizinho meu tem um pássaro numa gaiola. Deve ser recente, que nunca ouvi o bicho cantar, ou então é ele que não canta, dado o cativeiro, pode bem ser. Não gosto de pássaros em gaiolas, embora goste de pássaros. Gosto de os ver voar, onde bem lhes apetece, gosto de os ficar a mirar, enquanto rumam para longe, e gosto de os ver regressar, que os regressos do que se gosta, é do melhor que pode haver. Em pequena tive um corvo chamado Jacob, que uma vez, enquanto eu me baloiçava no meu baloiço de corda e pau, resolveu fazer um bonito serviço bem em cima da minha cabeça. Era lindo o meu corvo, e andava à solta por onde queria, coisa que irava deveras os cães das redondezas, demasiado burros para a sua perspicácia. Coisa de corvo. Tive ainda um professor na Escola Secundária, que se chamava Josué, e que lia livros eróticos enquanto nós fazíamos testes, e riamos em surdina. Vivia sozinho, tinha ar de alucinado, e dizia que vivia com pássaros à solta dentro de casa. Sempre tive a ideia de que as pessoas loucas são mais livres do que as outras. Fazem o que lhes apetece, incluindo viver com pássaros em casa, permitindo-lhes voar, sem gaiola. Todos loucos, mas todos livres, num apogeu de insanidade, utópico, mas fascinante. Sobre o assunto, aconselho a quem nunca leu, o Elogio da Loucura, de Erasmo, que numa estrondosa viagem à Mitologia Grega, diz mais ou menos isto, numa história contada pela Loucura, na primeira pessoa. A propósito, o meu vizinho não simpatiza comigo, e espreita-me quando chego tarde, não vá vir acompanhada de algum mancebo, para um prédio de família. Até lhe achava piada, que eu nestas coisas sou do pagode. Até descobrir que ele tem um pássaro numa gaiola.

4 comentários:

  1. Bonito texto, às vezes para nos sentirmos livres temos mesmo que ser um bocadinho loucos, de outra forma acabamos loucos na mesma.

    ; )

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  2. Nunca gostei de ver pássaros em gaiolas nem flores em jarras. Acustumou-me a minha avó, dos Ameais, que até nos galinheiros as galinhas tinham de ser felizes, e eram.

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  3. Ó pá! :( Eu tenho um canário que é feliz! E está na gaiola! Se o soltasse morria com certeza! E farta-se de cantar! E eu não sou má pessoa por isso! Até porque nem sequer fui eu que o comprei... mas que me afeiçoei a ele, afeiçoei-me. :)
    Gostei dessa da loucura :) e já li o Elogio :)
    :):):) (estes são pelo texto)

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  4. Antígona, não entristeças. Não duvido da felicidade do teu canário, se assim tu o julgas. Há excepções, claro, e o teu canário será uma. Sorrisos para ti também :)

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