segunda-feira, 3 de maio de 2010

A velha G

A velha G, era uma velha chata e feia. Com cheiro peçonhento, meio misturado de bafio e perfume floral, do mais intenso que possa haver. Tinha sempre um carrapito no alto da nuca e vestia uns vestidos de cores garridas, adornados com uns colares de bolas enormes e coloridas. Insistia em dar-me quatro beijos, porque lá era assim, e eu respingava sempre, que já dois custavam, quanto mais quatro. Nos dias de maior irritação, dava dois de fugida, e afastava-me num ápice, a fim de fugir às suas mãos que teimavam em segurar-me perto, para me dar mais dois. O cheiro dela ficava-me nas entranhas do nariz por tempo considerável. Era uma velha lutadora, que isto nesta vida não se tem só defeitos. Coisa que ela quisesse, lá chegava, e o que ela pensasse, era para se fazer. Julgo que às vezes, conseguia os objectivos por exaustão de quem a ouvia, só para surgir descanso, que esse, na revelia de sua Excelência, era impossível. Fez casas aqui, acolá, subiu na vida, mas continuou a apanhar azeitona nos terrenos baldios, de sol a sol, porque o azeite fazia-lhe falta, e a vida é cara. Já não a vejo há tempo considerável, mas ouço notícias dela, de quando em vez, embora não faça questão, que é uma daquelas pessoas que me deixou imagem de bruxa, daquelas construídas na infância, e consequentemente eternas. Não obstante, admiro-lhe a capacidade de conquista, e por isso, me vem com frequência à cabeça, como ainda hoje. Costumo ser orgulhosa das minhas acções, posturas e atitudes respeitadoras, coesas, inteiras. No meio da decência, lembro-me dela, e do seu ardil, e de como chegou longe a sacana. Não abdico dos meus ideais por metas, óbvio. Mas não deixo de pensar, às vezes, em certos dias, que lhe admiro a capacidade de evolução externa, que a interna, enfim, ficou-se por lá, quiçá no meio dos olivais. É quase centenária, bebe vinho com fartura, conservou-se. Nunca aturou ninguém, porque todos a aturaram sempre a ela. Chegou onde queria, independentemente de tudo, e terá falta de muita coisa, mas não de mérito. É uma Mulher grande. Feia, chata, mal cheirosa, manipuladora, e essas coisas, mas ainda assim, grande. Das tais grandezas externas, mas que neste mundo de cão, valem. E valem que se fartam. A propósito, é uma das grandes responsáveis por eu não simpatizar com Francesas, salvando as devidas excepções, claro. Já tive outras experiências posteriores poderosas, mas ela foi a primeira.
Contra Franceses, não tenho nada.

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