sábado, 1 de maio de 2010

O Sr M.

O Sr M., tinha 95. Era meu amigo, claro, que sou das que tem amigos de todas as idades. Tínhamos uma coisa em comum, que era o tal do sorriso, sempre a emergir. Todos os dias de manhã, subia o passeio em frente ao lar na sua cadeira de rodas, fiel companheira de anos, e fazia ginástica nas grades do portão. Era a primeira pessoa que via, sempre chegava, assim não chovesse. Li livros dele, ele leu meus, desde Miguel Sousa Tavares, a Gabriel Garcia Marquez, a Milan Kundera, dado que tudo povoava a sua fantástica biblioteca. Falava das obras com uma mestria, e um discernimento pouco usual para a idade, e cuidava de si sozinho, por entre um esforço atroz, dadas as limitações físicas, só porque era mentalmente forte. Ontem, disse-me que se ia embora breve, que a pilha que lhe segurava o coração não estava a dar conta do recado, dado que o sacana estava preguiçoso. Disse-lhe o mesmo de sempre, entre um disparate, e um deixe-se dessas conversas que não gosto delas.
O Sr M., tinha razão, e partiu, pela madrugada. Já é a segunda vez que sou avisada, e nunca acredito em quem me fala, burrice a minha. O Sr M., foi de noite, longe de mim, e por mórbido que pareça, queria ter estado ao seu lado, porque ele era meu amigo, e eu era amiga dele, e as amizades têm destas coisas. Mesmo sabendo que é natural a partida de alguém da sua idade, vou ter saudades do Sr. M., que era o reflexo do meu sorriso, sempre. Deixo-lhe esta pequena homenagem, entre tantas, que sempre lhe fiz.
Perdoem-me a escrita um tanto ou quanto descoordenada. Há dias assim.

1 comentário:

  1. Um sorriso para ti, outro paro o Senho M, e para essa amizade. Há Homens assim, e a esses, como o Sr. M, é um previlégio conhece-los, e viverão sempre na nossa memória :):):)

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