domingo, 20 de junho de 2010

A cobra e as horas

Ontem mataram uma cobra na minha beira. Não me parecendo bicho dócil, não lhes desejo o extermínio, que fazem falta à fauna da terra, e são ser vivo, ainda que rastejante, coisa que repugna, em todos os sentidos. Juntaram-se almas sedentas de lhe dar cabo da vida, como se a dita, que apenas se rastejava e nada mais, lhes perturbasse o espírito, quando apenas se encontrava de passagem, e já em fuga. Alguém a prende, enquanto outro alguém lhe dá cabo da saúde com uma sede de sangue de meter dó. Juntaram-se dois dós na minha existência. O dó do bicho, que passou no sítio errado, na hora errada, terrível destino lhe foi guardado por isso. E o dó de quem assim anseia exterminar a pobre, como se o assunto fosse de vida ou de morte. Até quem inicialmente parecia indiferente, se uniu naquela caçada feroz, sem móbil aparente, que ninguém ia come-la, ou cobiçar-lhe a pele para uma qualquer mala ou sapato. O poder da vontade junta é uma coisa ignóbil, que monopoliza indiferenças, e canaliza-las em prol do cerne em questão. Aumenta, quando a causa não é nobre, o que me deixa angustiada. Parecia que naquele momento, nada mais havia a fazer, que aquilo mesmo. E fez-se, claro. Eu virei costas, que de imediato percebi, que nada conseguiria fazer contra um povo enraivecido. Fiquei a olha-los com desdém, ao longe. Perderam a minha consideração, coisa que nem lhes interessa nada, mas enfim. Na nossa vida também é assim. Existem locais errados e horas erradas. Resta-nos a capacidade de ardilar a fuga, com engenho, um tanto ou quanto superior aos dos animais, às vezes claro. A hora errada é uma coisa terrível.

1 comentário:

  1. Nesses ajuntamentos é que se vêem a desumanidade e a ignorância e mais umas quantas coisas que, para alguém com a tua profissão, são um manancial de pesquisa...coitados, é tudo o que se me apraz dizer.

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