domingo, 13 de junho de 2010

Nobrezas

Em dia de enfado, vou ao Pingo Doce. Lá dentro, um corropio. Uma miúda rabujenta, alterna choraminguices com cantigas, nomeadamente a canção da publicidade, que trauteia com uma voz esganiçada, enquanto a mãe a manda calar, ao que ela desobedece, claro, percebi logo que o ia fazer. As funcionárias de bata branca e avental verde, espalham-se por entre os corredores, com cargas de mercadoria, para arrumar naquelas prateleiras onde tudo se avia, com uma sede estranha, em tempos de crise. Na fila da peixaria, vejo a minha ex sogra, igual a ela mesma. Uma das desvantagens das cidades pequenas, é termos de ver toda a gente em todo o lado, gente essa, que de esguelha, nos mira a silhueta, e as compras que temos no carro. Um horror. Costumo deixar a fruta para o fim, e depois de pegar num cacho de bananas e numa caixa de cerejas, saio, mesmo antes de me saltar para as mãos, um petit gateau, uma séria perturbação que me cerca, logo a seguir à nutella. Já na saída, encontro o moço loiro, que já ronda ali há anos, proveniente de algum País de Leste. Fuma cigarro atrás de cigarro, e quer que eu lhe dê uma esmola. Há esmolas que me recuso a dar, correndo o risco de ser injusta, eu sei. Bem pela tardinha, no metro de Lisboa, encontro o cego que não via há anos. Toca um qualquer instrumento, já diferente do meu conhecido, e leva a caixa pendurada ao pescoço, onde se pode depositar o que se entender, perante a desgraça, e a arte que consegue ter. Sem olhos, apenas com o lugar deles, circula por entre as pessoas, com uma ligeireza de quem já sabe muito da arte de sobreviver, grande arte esta. Pedir esmola, é sempre um acto precário, tendo em conta a dignidade humana. Ainda assim, e mesmo na precaridade, pode ou não ter alguma nobreza.

1 comentário:

  1. E eu que vim ao teu blog para saber da noite de ontem e tu nada... não se faz :)

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