quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dias

Em dias de ócio, encontro sempre em casa com que me entreter. Quanto mais não seja, a livrar-me disto e daquilo que por qualquer razão já não me trás proveito. Sempre pensei, ao longo do tempo, que as pessoas fossem coerentes. As casas que conheço, atafulhadas de coisas até ao tutano, são por norma de gente que acumula pertences, pessoas e sintomas, quer eles façam bem quer eles façam mal. A minha tia, por exemplo, guardava na sua pequena casa, frascos de mokambo vazios e latas de coqui, como se de uma relíquia se tratassem. Como guardava o marido, um rezingão velho e coxo, capaz de a fazer infeliz, mas era dela, e ela guardou-o para todo o sempre. Irritava-me isto, causava-me comichões e outros incómodos esquisitos. Eu, sempre fui da libertação de espaços. Não me dou bem com atafulhos e é mais fácil deitar fora coisas que um dia me faltem, do que guardar até ao infinito vestidos e vestidinhos, cacos e caquinhos, tudo tropeço, para o meu rico espaço. Isto tudo por fora, e por dentro também era costume. Algo aconteceu, ou perdi a coerência. Isto passa, ou então a tal da coerência, que eu tanto estudei nem é coisa que exista, poderá ser esse o caso. Temo ainda a mudança. A assim ser, breve, encontrar-me-ei a habitar uma casa tremendamente cheia de tudo, desde roupas a outros objectos, que me invadirão por fora, tal qual agora, me sinto invadida por dentro.

1 comentário:

  1. Fácil - atribui um praço de validade (ou permanência) aos objectos. Expirou? Rua!

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