domingo, 27 de junho de 2010

Tróia

No baú do quarto do fundo encontro um pano encarnado. Encarnado sim, palavra que prefiro em detrimento de vermelho, mais subtil, menos poderoso. Acompanhou-me em tempos e nunca me desfiz dele. Ainda me lembro de quando me acompanhou numa excursão a Tróia. Tróia é daqueles sítios que me carrega memórias, dispares de todo, mas poderosas como só elas. De amigos que já me deixaram, de excursões adolescentes, de noites proibidas, daquelas proibidas mesmo a sério, que só são possíveis uma vez na vida, e eu não sou nada dada a desperdícios, graças a Deus.
Quem organizava os passeios era o Nuno, uma paixão assolapada que tive, naquela altura em que era adolescente escanzelada sem graça nenhuma e cheia de borbulhas no rosto. Ele tinha olhos para todas menos para mim, que me saracoteava bem na sua fronte, de biquíni reduzido que me tapava a carga de ossos, e de cabelo aos caracóis desgrenhado e deveras desalinhado. Ele, por sua vez, sorria-me de esguelha, do alto da sua pose, como que para me querer dizer, que podia cirandar à vontade, que dele, nada levaria. Naquela altura eu ouvia Brian Adams, e outros assim. Fechava a sala às escuras, já no sossego do lar, e derramava umas estúpidas lágrimas por aquele amor que eu queria tanto, mas que não me queria a mim, mal eu sabia, naquela altura, que o correr atrás é o nosso pior caminho, quando queremos alguém que não nos quer. Passaram os tempos, as borbulhas também, os cabelos acalmaram e eu cresci qualquer coisa. Por fora, e acima de tudo por dentro. Dia surgiu, por alma não sei de quem, em que sua eminência se abeirou de mim, tecendo elogios cuidados e rebuscados, numa altura em que o seu metro e oitenta, e o seu sorriso rasgado, já para mim mais não valiam, do que isso mesmo. Armei-me de orgulho, terrível defeito que por vezes me assola, mas que aqui me valeu em grande, e mandei-o dar a tal da volta, que ele tão merecia e que eu dei tantas vezes, sob a sua voz de comando. Senti-me grande nesse dia, e dai para a frente, em quase todos, que ele foi personagem importante, na construção da minha auto estima. Do sofrimento pateta ficou um ensinamento para vida, que certo ou errado, me tem guiado até aqui. Correr atrás de quem não nos quer, nada nos dá e muito nos tira. Mas podemos correr, claro. Ao lado de alguém, na mesma direcção. Quando alguém nos quer e nós o queremos também. Ai, até arrisco dizer que devemos mesmo fazê-lo, assumindo um sentido figurado, susceptível de várias interpretações. A marcha por demais lenta, salvando as devidas excepções, pode ser bem traiçoeira.

3 comentários:

  1. São essas porradinhas que fazem de nós, o que mais tarde vimos a ser. As opções e as escolhas, em tempo certo, definem-nos o carácter e o rumo. Gostei da frase - a marcha por demais lenta. E deste-me outra dica, Troia, e é mesmo que ao lado. Boa semana :)

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  2. E houve alguém que me disse um dia uma grande verdade que jamais esqueci "quem não nos quer, não nos merece"

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  3. A Tróia, não sei se volto. Aquela música do Rui Veloso, que diz para não voltarmos onde fomos felizes? É isso. Não me acontece em muito lado, mas Tróia tem tanto de mim. Que acho que lá ficará para sempre...

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