sábado, 26 de junho de 2010

Demasiada gente

Foi dada recém nascida à tia, que a mãe já tinha muitos. Da casa da mãe verdadeira, recorda o barulho dos irmãos, que se atropelavam na brincadeira. Da casa da mãe emprestada recorda o silêncio, juntamente com a certeza de não pertencer ali. Sei de outras, de tempos idos. Em que famílias numerosas se desfaziam dos filhos para um tio ou para um qualquer outro, que desse o pão para a boca, em épocas de vacas magras. Aqui nem foi bem o caso. A mãe emprestada nasceu de ventre seco, e não era capaz de fazer gente. A irmã, alma de benfeitora, resolveu acudir e dar-lhe um bem precioso. E hoje?, pergunto. Nem me responde em clareza, hoje, que já tem duas mães e nenhum pai, que já morreram os dois. Hoje, quando o marido tem duas sogras, e os filhos um considerável número de avós. Tem as duas lá em casa, que às vezes, calha assim. A mãe emprestada, que é só dela, que é filha única, daquela mãe. A mãe verdadeira, que é dela e dos outros que pariu, que afinal de contas, pariu-a a ela também, e ela sente a obrigação na pele, coisa que nos olhos, nem se nota muito. Se há sensação que me perturba é a da impotência, e perante o cenário, cheguei lá bem perto. Gosto de ajudar a lidar com gentes. Gosto do desafio da procura, da descoberta da solução. Mas demasiada gente num problema, é isso mesmo. Demasiada gente num problema.

1 comentário:

  1. Ora aí está uma situação que eu não consigo sequer imaginar! Desfazer-me de um filho! Pode ser por ter tido só dois, mas o facto é que tenho pena de não ter tido mais. Será que a partir, para aí do 5º, a pessoa já nem dá por isso?!

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