sábado, 19 de maio de 2012

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Na sala de espera amontoa-se gente com um ar pálido e gasto, mais ou menos como o da roupa que vestem, do calçado que calçam, do cabelo que usam para ornamentar um rosto muito próximo de coisa nenhuma. A ausência de expressão é algo de extremamente forte que assalta algumas pessoas logo após passarem o limiar da tristeza, que também tem fim. É estranha esta ligação, mas muito verdadeira. É ausência no conteúdo, fortaleza no poder de se impor. Ninguém fica triste para sempre, ou durante tempos infinitos. Fica-se triste por períodos determinados, findos os quais o corpo quebra para dar lugar à ausência, à inexpressão, à frieza de rostos que olham sem ver a envolta, demasiada para o que conseguem reter. Trata este estado uma indiferença forçada, arrancada a custo de dentro de corpos sofridos e cansados que a usam em prol de resistirem a dias enormes e sem fim. Enquanto esperava a hora, tiro um café. Dezenas de pessoas de bata branquinha passam nos corredores e sorriem para quem está. Quando entro ele louva-lhes o trabalho. São gente da boa. Já lhe zelaram o corpo, já se ocuparam dos soros, das sondas, dos pensos e dos desperdícios. Para além disso conversaram com ele e disseram-lhe que está a melhorar. Está fino, pronto para outra. Mesmo ao lado um moço muito novo distrai-se no facebook. O da cama do meio morreu durante a noite. No piso das senhoras amontoam-se flores e conversas de ânimo. São mais desanimadas elas, têm medo, e escolhem até o que as irá cobrir dentro do leito da morte. O vestido branco, diz-me. A não ser que ele morra primeiro; se assim for, terei de ir de luto. Quis fugir-lhe, confesso, e consciencializei então que o que sabemos ser certo nem sempre se verifica nas nossas emoções. Que as verdades são verdades quando se aplicam a nós e mentiras quando não se aplicam. E ainda que devido a isso, verdades são dados científicos e comprovados com fórmulas matemáticas, tabelas periódicas e tubos de ensaio, e pouco mais do que isso.

( Sim, eu já sabia disto. Mas a nossa pele, por vezes esquecida, acorda quando a sacodem por fora com força.)


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