quarta-feira, 2 de maio de 2012

Dança

Todos os dias dançava em frente ao espelho do quarto da avó Rosa. Ligava o leitor de cassetes que também lia discos, escolhia uma qualquer das muitas que povoavam a graveta, ligava o som e iniciava o treino intenso que poderia durar umas horas ou uns minutos, dependia da resistência dos membros residentes lá em casa. O gato branco costumava espreitá-la por entre a fresta da porta, enquanto ela deambulava de um lado para o outro do quarto, ornamentada com colares de pérolas emprestados pelo baú guardador de jóias, polvilhada com pó de arroz usurpado à socapa da caixinha redonda, e perfumada com uma borrifadela do frasco de vidro do qual não se lembra o nome, mas que exalava um cheiro digno de uma senhora. Havia duas ou três músicas preferidas. Duas ou três talvez seja pouco, uma meia dúzia, daquelas que já conhecia a letra, as pausas e os arranques, os refrões e os versos de amor. Não se preocupava muito com ele na altura. Estava mais concentrada em fazer boa figura para o espelho, que a olhava de alto a baixo sem deixar escapar um nadinha que fosse do seu corpo, vestido normalmente com saia de xadrez plissada, colã colorida de uma qualquer cor que combinasse ou não, e umas botas até ao joelho cinzentas, que a devem ter acompanhado durante muito tempo, sempre me lembro de a ver com elas. No entanto, aqueles versos de amor que as letras cantavam,  e muito embora pouco lhe dissessem quando comparados com o espelho que lhe retribuía uma felicidade sem fim, deixavam-na um tanto ou quanto intrigada, curiosa, desejosa de saber o que aquilo era, uma vez que soava bem, era doce, e parecia uma melodia tranquila, segura, sossegada. Um dia ousou perguntar a alguém que julgou sabedor, o que diriam aqueles versos escritos por uns dedos impregnados de finura, que os transformavam num embalo suave e delicado, e se o amor era mesmo assim. Os olhos levantaram-se da função e sorriram perante a curiosidade vestida de oito anos, pintada e adornada por diversos tons pastel, que a tornavam terna por fora e por dentro. A seu tempo, saberás, disse-lhe, numa resposta que a deixou insatisfeita, encostada apenas aos poemas que ouvia, sem saber se os mesmos eram verdadeiros e autênticos, ou se por outro lado eram falsos e enganosos. Não se incomodou em demasia com isso. Voltou ao quarto e dançou, enquanto a harmonia lhe povoava o corpo magricela, o gato a espreitava da soleira da porta, e o sol a benzia com um calor forte e quase tão intenso como o amor que se ouvia.

( Apercebeu-se muito tempo depois que não tinha escolhido a pessoa certa. Sofria por amor, aquela que escondida por detrás dos óculos de massa castanha, bordava panos com cores garridas. Lá dentro do corpo entravam-lhe saberes que não queria possuir, que lhe vinham disfarçados, dissimulados, mas suficientemente perceptíveis para que os guardasse por dentro, sem nunca mais os conseguir libertar. A seu tempo, saberás, recordaE foi mesmo verdade. )

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