quarta-feira, 9 de maio de 2012

Revoltas

Ainda me lembro de quando ela foi mordida por um cão. Uma sensação muito estanha, quase de descrença. Não que ser mordida por um cão seja uma coisa rara, mas é que aquela pessoa era a minha mãe, e à minha mãe não deveriam acontecer coisas más. Eu já era adulta, e muito adulta. A mordidela foi séria, com direito a pontos e afinidades. A minha mãe tinha sido mordida e eu estava incrédula, estranha, com dificuldade de interiorizar o sucedido. Imaginei a situação muitas vezes na minha cabeça. O meu pequeno cão julgou-se grande, e ladrou para um grande de verdade. O grande de verdade sentiu-se ofendido, e tentou comer o meu cão. A minha mãe, como qualquer dono de qualquer cão, meteu-se no meio e pagou por isso, mas salvou o meu cão. Depois foi para o hospital a jorrar sangue do braço. Após tratamento imediato, seguiu-se todo um processo, ainda moroso, de recuperação da carne que teve de renascer no local exacto de onde tinha sido arrancada.
Isto é só para dizer, e porque julgo que há gente que não entende, muito embora me diga exactamente o contrário por palavras escolhidas a preceito, que os pais são aqueles seres aos quais, e a não ser em situações específicas de longevidade, nada acontece. A nós filhos, pode acontecer-nos tudo. Podemos estar tristes, podemos cair, podemos magoar-nos e até estar doentes, que eles estão sempre ali para nos aquietar o corpo e o espírito, com beijos, afagos, palavras e remédios. O contrário, e pelo menos nas primeiras vezes, não pode acontecer. Não faz parte do mundo, do nosso mundo. Eles são os grandes, nós somos os filhos, e a aceitação do reverso, da fragilidade do nosso porto seguro, é uma das maiores provações que enfrentamos na vida. E existem provações que nunca deveriam acontecer antes da maioridade, que não tem nada a ver com 18, tem a ver com um conjunto de coisas diversas, sendo que tanto pode ser antes, como pode ser depois. E mesmo aí vai doer. E mesmo aí vai zangar. E mesmo aí vai revoltar. E quando a provação cai além da mordidela, e transforma a nossa segurança num ser que desaparece, ou que pode desaparecer rapidamente, tudo se acentua ainda mais. E a revolta é maior, bem como a zanga, bem como a fragilidade.
O que eu não percebo mesmo é o que surge muitas das vezes depois desta injustiça que a vida ousa cometer, e que trata o porquê de poucos compreenderam o tumulto que inunda a totalidade do ser, em caso de provação forte. Normal, impossível de conter, manifestamente necessário.

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