domingo, 6 de maio de 2012

Norte

Sai de manhã cedo e olhei para a ria. Enquanto caminhava pelo Campus Universitário, olhava para os gatos que se empoleiravam nos muros e me olhavam de soslaio quando eu passava. Na cantina comiam velhos, que deduzo, se alimentam ali ao abrigo de algum programa ou protocolo estabelecido, que lhes permite uma refeição quente todos os dias. O arrumador de carros deu-me um conjunto de preciosas indicações apesar de eu não ter moeda para lhe dar. Fiquei a saber onde era o Fórum, onde se compravam os melhores ovos moles, e até quando poderia deixar o carro sem risco de levar multa por falta de papelote. Lá dentro, no gigantesco edifício da reitoria, encontro inúmeros olhos que olham a morte tal e qual ela é, sem nomes pomposos, bonitos ou elegantes. É feia a morte, e é feio quando falamos dela. No meus sonhos de menina, por exemplo, era uma mulher magra, cadavérica, com cara de esqueleto e capa preta, com uma foice na mão. Nunca ninguém me disse que ela não era nada daquilo, e foi isso que ela foi durante muitos anos para mim, no meu imaginário, na minha fantasia. Na dúvida fantasiamos sempre, e há dias, meses, até anos, em que fantasiamos mal sem que ninguém se dê conta disso. Haviam homens e mulheres que a vêm de frente todos os dias, como a enfermeira da vmer, ou como Danai Papadatou, uma pequena Grega que ajuda crianças em luto, ou pais de crianças que as perderam para a morte. No meio dos discursos sérios todos rimos quando é caso disso, todos sonhamos porque é bom fazê-lo, todos somos gente feliz ou triste, depende das horas, do ânimo, da vida.

( Gosto do norte. Gosto do cheiro, da hospitalidade, da competência que constato nas gentes. Terei sorte com quem encontro? Pode ser, admito. Que seja sorte. Gosto do Norte. )

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